Vacinação na fronteira: 13 municípios do MS participam de pesquisa sobre vacinação contra Covid-19 - CONASEMS
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Brasil aqui tem SUS | 05/08/2021

Vacinação na fronteira: 13 municípios do MS participam de pesquisa sobre vacinação contra Covid-19

A ação de vacinação em massa fez parte de um estudo com a vacina da Janssen, que além de beneficiar 13 municípios fronteiriços do Mato Grosso do Sul, está contribuindo para gerar evidências científicas 

Dos 79 municípios do Estado do Mato Grosso do Sul, treze fazem fronteira com Paraguai e Bolívia. A população dessas cidades transita quase livremente de um país a outro. É como atravessar a rua e se vê diante de uma nacionalidade distinta. O grande fluxo de pessoas de países diferentes levou as autoridades brasileiras a desenvolver um cinturão sanitário contra a disseminação do coronavírus na região. Em menos de duas semanas, mais de 90% da população acima de 18 anos das 13 cidades estavam vacinadas, um percentual resultante da soma entre os que já haviam sido imunizados anteriormente e os que foram beneficiados por um estudo realizado com a vacina da Janssen em julho de 2021.

A pesquisa surgiu a partir de uma parceria entre o Conselho de Secretários Municipais de Saúde do Mato Grosso do Sul (COSEMS/MS) e a Secretaria de Estado da Saúde, que solicitaram ao Ministério da Saúde a inclusão dos municípios de fronteira em pesquisas sobre a eficácia das vacinas, o que possibilitaria uma grande oferta do imunizante em curto prazo e contribuiria com as pesquisas para aferir a sua efetividade contra a Covid-19. Até então, apenas dois municípios do estado de São Paulo fizeram parte de experiência semelhante envolvendo a conjunção entre gestão e ciência. Na cidade paulista de Serrana foi pesquisada a eficiência da Coronavac e em Botucatu, da AstraZeneca. A chegada da Janssen no Brasil, que imuniza contra a Covid-19 com apenas uma dose, foi a oportunidade para incluir esses municípios fronteiriços.

Até o mês de junho de 2021, o cinturão de proteção representa cerca de 212 mil pessoas acima de 18 anos imunizadas, de um total de 271 mil moradores das cidades fronteiriças. Só pelo projeto foram vacinadas 102 mil pessoas. “As regiões de fronteira são fontes importantes de introdução das novas variantes do coronavírus. Com a importação da Janssen, surgiu a oportunidade de avaliar a vacinação em massa no contexto da variante brasileira, a Gamma”, afirma o professor e pesquisador da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Júlio Croda, que coordena o estudo. O infectologista já vem desenvolvendo pesquisa sobre a efetividade de outras vacinas, como a Coronavac e AstraZeneca entre trabalhadores da saúde em Manaus e idosos em São Paulo.

Esforço da gestão municipal 

Corumbá, uma das cidades envolvidas na pesquisa, é o maior município em extensão territorial do Estado, onde se concentra 60% do Pantanal. Para levar o imunizante ao interior, chegando às populações mais isoladas como as ribeirinhas, a gestão municipal fez parceria com o exército e contou com a ajuda da sociedade. “Na fronteira de Corumbá com a Bolívia há um corredor onde passam mil pessoas por dia de todos os lugares do mundo. Os municípios de Corumbá e Ponta Porã são portas de entrada de quem vem da Europa, da Arábia e da China pelo Chile e pela Bolívia e se caracterizam pela contiguidade territorial, onde o que divide um país ao outro são ruas sem qualquer obstáculos,” explica o secretário municipal de saúde de Corumbá e presidente do COSEMS/MS, Rogério Leite. 

Segundo o gestor, o esforço do COSEMS e da Secretaria Estadual de Saúde para efetivar o projeto se deveu à necessidade de garantir o cinturão sanitário, já que praticamente não houve fechamento de fronteira internacional por parte do governo federal durante a pandemia. 

Até junho, Corumbá já havia registrado mais de 70 mil vacinados com mais de 18 anos. A população do município, segundo estimativa do IBGE, é de 84 mil pessoas. Para imunizar todos os munícipes nessa faixa etária, faltam em média duas a três mil pessoas, que, de acordo com o secretário, apresentam resistência à vacinação ou não puderam ser imunizadas no momento. “Estamos fazendo um trabalho de sensibilização, para que aceitem a vacina, em muitas frentes, envolvendo a Estratégia Saúde da Família, a assistência social, as comunidades religiosas, empresários, dentre outros”.

Através do projeto chegaram à região 165 mil doses do Ministério da Saúde. Cerca de 50 mil doses do imunizante, que não foram utilizadas na ação, serão distribuídas entre as populações situadas nas demais cidades do estado. Para ter acesso à vacina é necessário comprovar a nacionalidade brasileira e residência fixa. No Paraguai a vacinação ocorre de forma mais lenta, mas na Bolívia também já está sendo vacinada a população de até 18 anos.  

No primeiro momento de enfrentamento da pandemia em Corumbá, foram realizadas barreiras sanitárias com a ajuda do exército e expedições na área rural, para garantir a segurança contra a multiplicação do vírus e disseminar informações sobre o que estava acontecendo no Brasil e no mundo. A assistência hospitalar ampliou o número de leitos de CTI de 8 para quase 30 leitos, a estrutura de equipamentos foi aprimorada e foram contratados profissionais capacitados para dar melhor assistência ao usuário. O município também investiu na busca ativa e testagem em massa.

A pesquisa

O estudo sobre a efetividade da vacinação em massa nos municípios de fronteira do Mato Grosso do Sul tem dois objetivos principais. O primeiro é avaliar o impacto da vacinação, cujos resultados são aferidos nos primeiros 60 dias após a aplicação. Isto significa ver os efeitos imediatos da vacina sobre a redução do número de casos, óbitos e hospitalizações. No segundo momento, é avaliada a efetividade da vacina ao longo de um ano com o objetivo de verificar o escape vacinal. Depois que toda população for vacinada, o objetivo é identificar quem ficou protegido da variante Gamma. Essa fase também observa o efeito indireto da vacina no público infantil com a chamada imunidade de rebanho, gerada pela imunização em massa dos adultos.

O estudo, realizado através do grupo VEBRA COVID-19, tem a parceria de diversas instituições como a Fiocruz, UFMS, Stanford University, Yale University, Instituto de Salude Global de Barcelona e Universidade da Flórida. O coordenador Júlio Croda elogia o envolvimento das gestões municipais, que mobilizaram a população em um curto espaço de tempo, fazendo busca ativa entre os povos ribeirinhos. “O projeto foi aprovado na Comissão Intergestores Tripartite (CIT) e o COSEMS/MS teve um papel muito importante de articulador desse processo”, afirma. A conjunção de esforços entre poder público e instituições de pesquisa possibilitou atender a demanda por geração de evidências científicas, como também beneficiou a população, permitindo que os 13 municípios completassem o calendário vacinal em um curto espaço de tempo.

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