Especial Brasil, aqui tem SUS: Nasf desenvolve ações de cuidado continuado de idosos durante a pandemia em Guarulhos - SP - CONASEMS

Especial Brasil, aqui tem SUS: Nasf desenvolve ações de cuidado continuado de idosos durante a pandemia em Guarulhos – SP

Os idosos estão entre os grupos mais vulneráveis quanto ao risco de agravamento por Covid-19. No entanto, o medo de contaminação e as estratégias de prevenção têm provocado o afastamento dessa população das unidades de saúde, gerando muitas vezes outros agravos. Preocupados com essa situação, profissionais do Núcleo de Apoio à Saúde Família (Nasf) de Guarulhos-SP decidiram desenvolver novas estratégias para avaliar os idosos de forma remota, com o objetivo de entender a atual situação de saúde e planejar formas de cuidado diante de um cenário de isolamento social.

Guarulhos é um município de mais de uma milhão de habitantes, que embora seja dependente da capital São Paulo, é referência em saúde para muitos municípios menores da região metropolitana e do Alto Tietê. Como faz divisa com bairros mais simples da capital, acaba tendo uma população transitória muito grande, o que facilita o aumento da transmissão de Covid-19. Em novembro, quase 30 mil pessoas haviam sido contaminadas pela doença e a taxa de ocupação hospitalar estava em 59%.

De acordo com a autora da experiência, a educadora física Luciana Miranda, antes de iniciar a busca ativa dos idosos, através de contatos telefônicos, as equipes de saúde estavam quase integralmente voltadas ao controle da pandemia. “Pensamos então que não poderíamos acompanhar apenas os casos de Covid-19, porque havia uma demanda reprimida. Precisávamos dar atenção, avaliá-los de alguma forma, mostrando que a gente continuava sendo um apoio. Geralmente, essa população se dirige primeiro para as Unidades Básicas de Saúde (UBS) em busca de atendimento inicial e precisa ser acolhida nas suas necessidades”, explica Luciana.

Foi utilizado um dispositivo denominado avaliação multidimensional da pessoa idosa (AMPI) para investigar as condições individuais, funcionais, cognitivas, afetivas, familiares e sociais dos idosos. Através dele é possível identificar as reais necessidades de saúde dos usuários nesta faixa etária, contribuindo para traçar um plano de cuidado na Atenção Básica (AB) e até mesmo referenciar o paciente para outros níveis de complexidade, quando necessitam de um atendimento especializado. Embora a avaliação já esteja na rotina de trabalho das unidades básicas de saúde, o desafio era adequá-la a um modelo não presencial, por meio de contato telefônico.

A metodologia de avaliação foi adaptada de forma que os testes realizados presencialmente foram substituídos por perguntas sobre atividades de rotina diária, com o objetivo de investigar, por exemplo, dificuldades motoras. A escuta ampliada foi o elemento utilizado para perceber a saúde mental dos usuários, considerando os sentimentos relacionados ao isolamento social. Os idosos receberam orientações sobre cuidados com a alimentação, dicas de exercícios físicos que podem ser realizados em casa e de forma autônoma, além de atividades que podem colaborar para a redução de quadros depressivos e ansiosos. A psicóloga criou grupos de conversas online abertos à participação dos idosos e seus cuidadores e os usuários receberam orientações sobre os serviços em funcionamento nas unidades e os cuidados relacionados à COVID 19.

O trabalho foi desenvolvido por uma psicóloga, uma nutricionista, uma fisioterapeuta e uma educadora física do Nasf. A equipe fez contado com os idosos que frequentavam regularmente as unidades de saúde, como também com os que tinham cadastro mas não conheciam o trabalho desenvolvido na UBS. A equipe observou que a presença dos profissionais, mesmo que de forma remota, gerou uma sensação de acolhimento entre os idosos. Houve poucos casos de recusa da ligação telefônica, muitos deles por não entenderem a proposta, desconfiarem (medo de trote) ou porque vinham sendo acompanhados por planos de saúde. Em função do risco de contaminação, até agosto as atividades de grupo e o atendimento domiciliar foram suspensos. No máximo o agente de saúde ia na porta do idosos perguntar sobre suas necessidades. No mês seguinte, o atendimento domiciliar foi retomado para os usuários com maiores necessidades, mas com equipe reduzida e com o uso rigoroso de Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

Nair de Oliveira Henrique faz parte do grupo de Pilates e coluna que retornou as atividades presenciais (com restrições) há pouco tempo em uma das UBS acompanhadas pelo Nasf. Ela conta a experiência do marido, que idoso, obeso e diabético, teve durante a pandemia uma paralisia de Bell. Seu Mizael Henrique foi avaliado inicialmente por telefone e em seguida acompanhado presencialmente por uma equipe de fisioterapeuta, enfermeira e médica. Ele também foi encaminhado para o Centro de Especialidades Médicas, onde tem acompanhamento mais específico. “Meu marido foi muito bem atendido em um momento difícil de pandemia. Ele foi encaminhado rápido para fazer fisioterapia e fonoaudiologia. Só tenho a agradecer”.

Contextos distintos

Para participar da experiência, foram escolhidas três Unidades Básicas de Saúde inseridas em contextos socioeconômicos bem distintos: em São Rafael a comunidade é carente e a maioria das habitações situam-se em favelas; Itapegica é um bairro industrializado; e Munhoz é uma região de classe média que concentra o maior número de idosos. As equipes identificaram situações de isolamento que provocaram alterações na saúde mental dos usuários, sobretudo naqueles que eram mais ativos. Os idosos foram então classificados em três categorias, de acordo com o grau de fragilidade física e emocional, e a estratégia de atuação foi adaptada a esse perfil.

Fizeram parte do estudo 134 idosos, sendo 88 mulheres e 46 homens com idade média de 73 anos. A maioria (53%) foi classificada como saudável, o que levou a equipe a desenvolver uma série de estímulos para que mantenham bons hábitos. Para os pacientes considerados frágeis (10,4%) foram intensificados os planos de cuidado e pensou-se em uma estratégia para evitar evolução dos usuários considerados pré-frágeis (37,3%). Um dado comum foi a identificação de ganho de peso significativo em todas as faixas etárias. O trabalho da equipe se divide em visitas domiciliares, contatos telefônicos e envio de informações via whatapp com orientações nutricionais, sugestões de práticas de movimento e apoio psicológico.

Luciana trabalha nas três UBS há sete anos e ao longo do tempo foi estabelecendo uma relação de muita proximidade com os idosos. Ela conduzia grupos de atividades físicas com a presença de muitos usuários. “No começo foi muito desafiador e difícil não ter mais contato com eles, sobretudo com os mais ativos, com quem eu tinha muita proximidade. A gente tem muito receio de como eles irão voltar em função da perda do convívio social e como há poucas previsões de como vai ser o trabalho dentro da unidade, adaptar foi um ganho muito grande. Foi satisfatório retomar o contato com eles, embora à distância.”

A experiência foi classificada como a melhor da Região Sudeste durante a I Mostra Virtual Brasil, aqui tem SUS.

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