Como o SUS está garantindo vacinação e assistência para a população em situação de rua em tempos de pandemia? - CONASEMS

Como o SUS está garantindo vacinação e assistência para a população em situação de rua em tempos de pandemia?

São Paulo, a maior cidade da América Latina, utiliza a estrutura dos Consultórios na Rua para garantir a vacinação contra a Covid-19 para a população em situação de vulnerabilidade

As recomendações para evitar a propagação do coronavírus não se enquadram nas condições de vida da população em situação de rua no Brasil. A pandemia, ao mesmo tempo que impulsionou a presença de um contingente cada vez maior de pessoas morando nas vias públicas, as tornou ainda mais vulneráveis. Em São Paulo-SP, o acesso à água ficou escasso com o fechamento de praças e parques públicos e a interdição de bares e restaurantes, onde esses moradores costumavam cuidar da higiene pessoal.

De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o número de pessoas em situação de rua no Brasil cresceu 140% entre 2012 e março de 2020, chegando a quase 222 mil brasileiros. No município de São Paulo, o censo da população em situação de rua realizado em 2019 calculou a presença de pelo menos 24.344 pessoas nessas condições, um número considerado subestimado por quem trabalha cotidianamente com essa população. O desemprego, a perda de um ente familiar que sustentava a família, os despejos são alguns indicativos de um crescimento considerável de sem tetos em decorrência da pandemia, dados que ainda não constam nas estatísticas oficiais.

O principal programa voltado à promoção da saúde da população em situação de rua na capital paulista é o Consultório na Rua, uma iniciativa que surgiu a partir da reivindicação do movimento popular. A experiência inspirou a adoção do programa nacionalmente, em 2012, através da Política Nacional da População em Situação de Rua (PNPR/2009). O Consultório na Rua sempre teve um papel fundamental na assistência às pessoas em situação de vulnerabilidade, com o advento da pandemia, o Programa ficou ainda mais essencial.

Segundo a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, a principal estratégia foi aumentar em 70% a quantidade de profissionais de saúde trabalhando, o que em números absolutos significou um acréscimo de 299 profissionais. Metade da equipe ficou na rua e a outra metade nos equipamentos sociais, estabelecimentos que dão suporte a essa população. Os sintomas de Covid-19 são monitorados e os casos suspeitos encaminhados para dois equipamentos criados pela prefeitura para manter em isolamento essa população. Um terceiro local passou a abrigar as pessoas com resultados confirmados, que recebem acompanhamento e cuidado durante a recuperação.

“Tivemos que pensar várias estratégias para nos adequarmos a essa situação. No início havia muito medo de que essa população fosse dizimada, mas conseguimos criar barreiras de proteção para conter os surtos. Algumas pessoas chegaram a ter 11 atendimentos”, relata a coordenadora do Consultório na Rua do Centro Social Nossa Senhora do Bom Parto, Marta Regina Marques Akiyama

O trabalho do Consultório na Rua é apoiado por uma Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência. “Buscamos informar as pessoas para que procurem a unidade porque é um direito delas, como também sensibilizamos os profissionais para recebê-las”, explica a enfermeira da equipe do Consultório na Rua da Mooca, Lidiane Damares Ferreira Barbosa. O Programa possibilitou uma aproximação entre a população vulnerável e equipes da atenção primária em saúde, a partir de atividades de acompanhamento, prevenção e promoção da saúde. “Fazemos busca ativa de pessoas com doenças como tuberculose, hipertensão, diabetes e sífilis, acompanhamos o uso contínuo de medicação e sempre trabalhamos a autonomia do usuário”, acrescenta.

Imunização

O Consultório na Rua de São Paulo tem uma peculiaridade importante: todos os agentes comunitários de saúde, que compõem as equipes, são egressos das ruas, o que favorece o vínculo entre profissionais e população. Na capital paulista atuam 25 equipes, constituídas por enfermeiro, médico, auxiliar de enfermagem, agente de saúde, agente social, psicólogo, dentista, dentre outros. A atuação dos profissionais é dividida por território, de acordo com um mapa da situação de rua da cidade. Cada agente acompanha um microterritório, caracterizado por um matriciamento que identifica o perfil das pessoas.

Esse modelo de organização tem sido fundamental para acessar as populações vulneráveis e garantir o direito à vacinação contra a Covid-19. As pessoas são cadastradas pelas equipes do Consultório na Rua e diante da ausência de informações exigidas no cadastro nacional, foi criado um sistema próprio da população em situação de rua de São Paulo pela equipe. A vacinação foi iniciada em fevereiro deste ano, com a imunização das pessoas acima de 60 anos, seguida da vacinação dos grupos acolhidos em abrigos. Nessa primeira fase foram imunizadas 18 mil pessoas em situação de rua em São Paulo.

O desafio das equipes passou a ser alcançar os ainda mais vulneráveis, que não têm vínculo direto com o poder público. Recentemente, foi definido pelos gestores locais que o primeiro lote das vacinas da Janssen, que tem eficácia contra a doença com apenas uma dose, será destinado a essa população. “Ser incluído no grupo prioritário para a vacina foi muito importante, pois muitos sofrem com comorbidades e não ficam por muito tempo em um lugar”, diz a enfermeira Lidiane. Agora, com o início da vacina em dose única, serão imunizadas 14 mil pessoas, que se concentram em espaços como a cracolândia, por exemplo.

“Vi uma aceitação muito grande da população em relação à vacina. As pessoas se emocionam ao receber o imunizante. Outro dia um usuário me entregou um papelzinho com um número de telefone e pediu comovido que ligasse para a mãe informando que ele estava vivo, que havia recebido a vacina”, conta a enfermeira Lidiane. “A população em situação de rua reivindicou o direito à vacina e o medo da pandemia as aproximou dos serviços de saúde. Diante da ameaça da Covid-19, uma frase ecoa entre eles: ‘O povo da rua quer viver ”.

Brasil, aqui tem SUS

Os trabalhos das equipes dos Consultórios na Rua foram premiados durante as Mostras Brasil, aqui tem SUS nos últimos anos. Duas experiências exitosas das secretarias municipais de saúde foram retratados em documentários.

Confira os vídeos:

Reportagens especiais 

Diante do cenário da pandemia, todos os municípios estão focados nos esforços para a vacinação contra a Covid-19. São milhares de experiências que retratam a capacidade, a diversidade e a potência do SUS. Com o objetivo de dar visibilidade para as boas práticas, o Conasems promove diversas ações como a Mostra Brasil, aqui tem SUS, que acontece há 16 anos, e a campanha #oSUSquefazemos, que já soma mais de mil postagens no Instagram, sempre com o objetivo de valorizar o trabalho dos profissionais de saúde e da gestão municipal.

Para somar a essas ações, o Conasems lançou uma série de reportagens especiais sobre experiências exitosas no enfrentamento à Covid-19, que destacam o trabalho das equipes em organizar os serviços e promover a vacinação. As reportagens estão sendo lançadas quinzenalmente aqui no site do Conasems. A primeira reportagem desta série trouxe a experiência de Santarém-PA. Confira aqui.

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