Especial Brasil, aqui tem SUS: barreira sanitária como estratégia para enfrentamento à Covid-19 em Porto Walter-AC - CONASEMS

Especial Brasil, aqui tem SUS: barreira sanitária como estratégia para enfrentamento à Covid-19 em Porto Walter-AC

Em muitos municípios brasileiros, a disseminação da Covid-19 impôs a criação de barreiras sanitárias para controlar o fluxo de chegada e saída de pessoas, diminuindo a possibilidade de contágio. Porto Walter, pequena cidade de 11 mil habitantes situada no interior do Acre, vivenciou essa experiência de forma mais intensa devido as suas características geográficas. Só é possível chegar ao município por via fluvial ou aérea e ainda assim não há rota comercial de aviões que aterrissem na localidade.

O medo da disseminação da doença, antes mesmo de criar uma infraestrutura de saúde capaz de oferecer cuidado, colaborou com a decisão do comitê de controle de isolar o município. O objetivo era sobretudo ganhar tempo, retardando a entrada do vírus para treinar as equipes de saúde e os profissionais de serviços essenciais, como também ampliar a estrutura de atendimento.

“A gente não seguiu exatamente a barreira sanitária de outros municípios, porque levamos em conta a nossa realidade. Criamos um decreto que impedia a venda de passagens fluviais de livre demanda. Só era liberado para quem realmente estivesse necessitando de um serviço de saúde. O resultado foi positivo porque quando surgiram os casos, tivemos como intervir”, conta o autor da experiência, Luan Coelho Pedrosa.

Os números reafirmam a tese: após o surgimento dos dois primeiros casos de pacientes que foram se tratar em um município vizinho, passaram-se 15 dias até que outra pessoa testasse positivo, e ao longo da pandemia foram contabilizados apenas dois óbitos provocados pela doença. O tempo foi fundamental, por exemplo, para que o hospital de campanha regional de Cruzeiro do Sul, para onde eram encaminhados os moradores de Porto Walter com complicações da doença, fosse instalado. A medida foi determinante para evitar qualquer desassistência.

“Quando precisamos referenciar os pacientes, o hospital já estava montado e tivemos leitos disponíveis. A equipe de saúde do nosso município também já tinha sido formada e foram contratados novos profissionais. Não fomos pegos de surpresa”, comemora Luan. Bancários, comerciantes, feirantes e demais pessoas que atendem o público foram treinadas de acordo com o comportamento de cada segmento. A população recebeu orientações para manter o distanciamento e as condições de limpeza dos ambientes e os profissionais de saúde foram preparados para lidar com a pandemia de acordo com os protocolos do Ministério da Saúde.

Reabertura

O controle mais rigoroso durou cerca de quatro meses. A reabertura se deu de forma gradativa e necessária por se tratar de um município isolado, o que o torna dependente de muitos serviços externos que envolvem transações financeiras, abastecimento e infraestrutura como iluminação pública. A base da economia local é a agricultura familiar e a única rota fluvial leva à Cruzeiro do Sul, onde há agências bancárias, hospital de grande porte e de onde chega boa parte dos insumos.

Barcos passaram a retornar ao município trazendo mercadorias e a assistência social começou a regular a movimentação de pessoas que necessitavam de serviços bancários e de saúde. Quando necessário, pacientes com Covid-19 ou outras doenças eram levados à Cruzeiro do Sul de barco. Nos casos graves, a prefeitura recorria ao programa do governo estadual denominado Tratamento Fora de Domicílio, que disponibiliza transporte aéreo em casos de urgência.

Outro fator fundamental para a abertura, que se deu após o início da transmissão comunitária, foi a necessidade da população de retomar o convívio social, sobretudo familiar, interrompido por meses de isolamento. “Era como se estivéssemos mantendo uma barreira em uma cachoeira, onde já não era mais possível aguentar a força da água”, compara Luan.

O município possui três unidades de saúde da família na zona urbana e duas na zona rural. Equipes ribeirinhas formadas por médico, enfermeiro, auxiliar de enfermagem e agentes, além das equipes do Programa de Agentes Comunitários (PAC), atuam na zona rural. Há na cidade uma unidade mista hospitalar para receber casos emergenciais com dez leitos disponíveis e atendimento ambulatorial.

O senhor Francisco Deodato adquiriu Covid-19 e foi tratado no anexo da unidade mista, onde permaneceu internado por 16 dias. “Graças a Deus fui muito bem cuidado até o dia da minha alta, tanto pela minha família como pelos trabalhadores da saúde. Fiquei agradecido a todos que cuidaram de mim. Agora vêm na minha casa fazer fisioterapia e tenho me sentido sempre muito bem”, reconhece seu Francisco.

O fisioterapeuta do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf), Bismarque Almeida, diz que a continuidade do cuidado de pacientes após a internação é focada no fortalecimento da musculatura respiratória e da musculatura periférica. Até o início de outubro, 317 pessoas tiveram diagnóstico confirmado de Covid-19, das quais 252 foram curadas. Havia duas pessoas internadas na unidade mista e nenhuma no hospital de campanha de Cruzeiro do Sul.

A experiência foi escolhida para representar o estado do Acre na quarta roda de conversa da I Mostra virtual Brasil, aqui tem SUS.

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