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Atenção à saúde | 19/04/2019

Seminário discute estratégias para combater aumento de casos de Malária no Pará

Após a grande diminuição da malária no país, o Brasil viu nos últimos dois anos o número de casos da doença triplicar, no Pará as notificações chegaram a atingir 46.263 em 2018. O estado é um dos que concentra o maior número de casos do país. Com o objetivo de discutir estratégias de enfrentamento dessa endemia, o Conselho Estadual de Secretarias de Saúde do Pará (Cosems-PA), a Secretaria de Estado da Saúde do Pará (SESPA), a Secretaria de Vigilância do Ministério da Saúde e o Conasems realizaram o 1° Seminário Regional de Malária nesta quarta (17) e quinta (18), em Breves-PA, na Ilha de Marajó. O evento contou com a participação de técnicos do Ministério da Saúde, Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), Instituto Evandro Chagas, Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN-PA), gestores e técnicos de várias secretarias municipais de saúde do Pará.

Fortalecer e integrar as ações de Vigilância em Saúde com a Atenção Básica foi o norte apontado por todos os especialistas durante as apresentações no seminário. O Diretor do Programa de Controle e Prevenção da Malária do Ministério da Saúde, Cássio Peterka, comenta que o aumento dos casos está ligado, principalmente, ao desmatamento da floresta amazônica e a desestruturalização das ações de combate e monitoramento do mosquito transmissor da doença. “Os assentamentos em áreas de floresta favorecem a proliferação do mosquito anofelino, transmissor do protozoário causador da doença, que é uma endemia rural, 95% dos casos estão fora da cidade, em assentamentos, áreas indígenas e garimpos”.

Para Cássio Peterka o aumento da malária está diretamente ligado à desestruturação das ações de combate e prevenção

Peterka destaca que a forte diminuição de casos no Brasil nos últimos anos interferiu na diminuição do investimento no combate ao mosquito. “Dentre tantas demandas de saúde que o município tem, é difícil manter as ações de combate à malária quando não está sendo registrado nenhum caso, porém, algumas áreas necessitam ter o controle contínuo.

A diminuição dos profissionais microscopistas, por exemplo, pode causar danos que levarão anos para serem contornados, como aconteceu com São Gabriel da Cachoeira-AM tinha eliminado a malária em 2016 e, depois de diminuir o número de profissionais de monitoramento e controle do mosquito, hoje é o município com mais casos no país”. Oieiras-PA também não teve casos em 2016, após sofrer falta de continuidade nas ações de vigilância, voltou a contabilizar casos. Segundo ele, é necessário que os municípios com surto estejam preparados para o diagnóstico rápido. “É preciso disponibilizar testes rápidos e o medicamento para conseguir o diagnóstico e o início do tratamento em menos de 48 horas para quebrar o ciclo e a pessoa que foi picada não possa transmitir a doença”.

Durante alguns meses do ano passado, houve falta de distribuição do medicamento a alguns municípios em surto. De acordo com Peterka, a Primaquina, que tem o tratamento mais ágil, estava em falta no mercado. “O Brasil não produz esse medicamento e pelo aumento mundial dos casos de malária, o Ministério não conseguiu adquirir o necessário. Nesse período os pacientes foram tratados com Cloroquina, que faz o tratamento ser mais demorado. O desabastecimento foi pontual, não acredito que isso tenha refletido no aumento expressivo do número de casos”.

A representante da OPAS, Sheila Rodobalho, também enfatizou a importância do engajamento dos profissionais para a eficiência das ações. “É preciso discutir a malária não só no nível técnico, mas também de forma política, reconhecendo as ações exitosas. Na OPAS temos anualmente a premiação, ‘Campeões contra a malária nas Américas’ que está na décima edição e reconhece programas locais, nacionais e internacionais com abordagens inovadoras para superar os desafios impostos pela malária no continente americano”. Sheila também destacou que o Brasil enfrenta um aumento nos casos de malária, mas não um aumento nos casos de mortalidade pela doença. “Na África, por exemplo, vemos um aumento de casos e da mortalidade, mas no Brasil, a mortalidade não aumenta porque o país tem um sistema de saúde que presta assistência a população”.

Sheila Rodobalho destacou que é possível pensar em eliminação da malária no Brasil

O presidente do Conasems, Mauro Junqueira, comentou sobre a amplitude do SUS e enfatizou a importância de integrar a Vigilância em Saúde com a Atenção Básica. “O Conasems vem desenvolvendo através do projeto Aedes na Mira uma série de ações de capacitações em vigilância em todo país e sempre enfatizando a importância de trabalhar de forma integrada com a atenção básica”. Outro apontamento feito por Mauro foi em relação aos recursos da União destinados para o orçamento da saúde para a área de vigilância, que representam cerca de 1,08% do total de recursos federais.

Mauro Junqueira reafirmou a importância da integração das ações de vigilância e atenção básica

O presidente do Cosems Pará, Charles Tocantins, falou sobre a importância de realizar um evento na região do Marajó. “Brasília precisa ficar mais próxima dos interiores do país, não podemos conhecer as localidades apenas por relatórios, é necessário presenciar para entender a realidade das regiões ribeirinhas que são tão diferentes do restante do país”. Charles também destacou o objetivo do seminário. “A partir desse conjunto de atividades realizadas e das trocas de experiências entre os municípios com realidades semelhantes, vamos tirar propostas para planos de intervenção direta no combate à malária e acredito que essas propostas ficam ainda mais importantes por estarem sendo debatidas entre os três entes responsáveis pela gestão do SUS”.

Charles Tocantins enfatizou que a partir do seminário serão elaborados planos de intervenção nos municípios

O diretor de Vigilância da Secretaria de Estado da Saúde do Pará, Amiraldo Pinheiro, também enfatizou a importância da discussão com a participação dos três entes. “Fico feliz em ver que o estado e os municípios estão alinhados, principalmente em relação a integração das ações com a Atenção Básica. Com o financiamento atual, a ideia é traçar estratégias para uma boa análise de situação e focar as ações em regiões com mais casos, buscando não deixar a doença disseminar.

Amaury Cunha, secretário municipal de saúde de Breves, cidade que sediou o seminário, comentou sobre as dificuldades de ‘fazer saúde pública’ em áreas ribeirinhas. “São inúmeras dificuldades além do subfinanciamento do SUS, temos as distâncias, dificuldade de locomoção, a série de doenças que acometem essas áreas, a população marajoara que está abaixo da linha da pobreza. Esses fatores nos motivam ainda mais a levar um atendimento de qualidade para nossa população. Acredito que se não podemos fazer tudo que é preciso, faremos o que for possível com precisão”.

Rede de Saúde no Marajó

Ainda na quinta-feira (18) Mauro Junqueira e os vices-presidentes do Conasems, Charles Tocantins e Willames Freire, aproveitaram a oportunidade para reunir-se com os secretários de saúde dos 16 municípios do Marajó, após visita à rede de saúde de Breves e Melgaço. A reunião tratou de temas urgentes para a região além da Malária, como a reposição de profissionais do Programa Mais Médicos, a gestão da média e alta complexidade em Hospitais de Pequeno Porte, e a utilização do recurso que será aportado nas UBS que ampliarem o horário de funcionamento. “Precisamos de autonomia para o gestor planejar e executar as ações de saúde conforme sua realidade. Não é o Conasems e nem o Ministério que vai dizer como as coisas devem funcionar aqui no Marajó”. Os municípios se comprometeram a levar para a CIR uma pauta conjunta dos municípios da região, como a proposta de um consórcio marajoara para a aquisição de medicamentos.

Confira as apresentações do evento e o último boletim epidemiológico da Malária

 

Confira as fotos do Seminário da Malária em Breves.

Confira também fotos da visita à rede de saúde de Breves e Melgaço.

Por Talita Carvalho, da Assessoria de Comunicação do Conasems 
Atendimento à imprensa
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