São Lourenço do Sul: município gaúcho é pioneiro em saúde mental e investe no matriciamento na pandemia - CONASEMS
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Brasil aqui tem SUS | 04/03/2022

São Lourenço do Sul: município gaúcho é pioneiro em saúde mental e investe no matriciamento na pandemia

A rede de saúde mental do município de São Lourenço do Sul – RS é referência nacional. Seu desenvolvimento se deve a um trabalho, iniciado há mais de 30 anos, que agrega à ampliação dos serviços um modelo de valorização da formação profissional, seguindo a perspectiva da luta antimanicomial. Em tempos de pandemia, um projeto desenvolvido no município, denominado Ambular, fortalece a relação ensino-serviço, ao criar um apoio especializado em saúde mental voltado a oferecer matriciamento aos profissionais que atuam nas Unidades Básicas de Saúde (UBS).

“O município é pequeno, mas temos uma rede antiga. Entendemos o nosso importante papel de reorganização do serviço, sobretudo porque a saúde mental acompanhou todas as ondas da pandemia, absorvendo a mudança do perfil do usuário, como também as formas de acesso“, conta a coordenadora da residência médica em psiquiatria e da residência do projeto Ambular, a psiquiatra Fernanda Penkala. A criação do Ambular veio desatrelada à ideia de um espaço de atendimento especializado voltado a concentrar a demanda em saúde mental. O dispositivo funciona justamente na direção contrária, ao assegurar que os profissionais das UBS ampliem cada vez mais suas aptidões para lidar com os pacientes com sofrimento psíquico leve e moderado.

“Topei o desafio do ambulatório com a condição de que esse espaço não fosse estático, o que significa que não deveria se destinar a receber pacientes. Os casos deveriam ser desenvolvidos com a equipe multiprofissional no território”, explica o coordenador da Saúde Mental do município, o psiquiatra Flávio Resmini. Segundo a lógica do serviço, o profissional da unidade de saúde vai sendo orientado pelos especialistas, passo a passo, sobre como conduzir a situação daquele cidadão sob cuidado na sua unidade de referência. Ao qualificar o médico ou enfermeiro que está na ponta, a iniciativa também contribuiu para o atendimento do usuário da zona rural, que passou a evitar o deslocamento para o centro urbano com medo de contaminação pelo coronavírus. São Lourenço do Sul tem pouco mais de 40 mil habitantes e metade da população reside na área rural.

Ao mesmo tempo em que descentraliza o atendimento, a experiência tem fortalecido a contribuição do SUS como um campo de formação. A equipe do Ambular é composta por profissionais especializados em saúde mental e residentes da Residência Médica em Psiquiatria e da Residência Multiprofissional do município. Eles se dividem em mini equipes para realizar o matriciamento em todas as UBS de São Lourenço do Sul. “A formação se dá dentro da assistência, como uma rede escola, o que possibilita aos profissionais ter a dimensão da complexidade do SUS, com seus mecanismos de gestão, organização, compartilhamento de decisões ”, avalia Fernanda.

A partir das questões que surgem nas situações práticas dos atendimentos, esse grupo de apoio matricial é acionado para ajudar a desenvolver o projeto terapêutico do paciente. Quando há maiores necessidades, os especialistas chegam a atender junto com as equipes da Estratégia Saúde da Família nos territórios ou o usuário pode ser encaminhado para outro serviço especializado existente na rede. A demanda sobre o projeto se faz permanente, considerando a alta rotatividade dos profissionais da Atenção Básica, com vínculos de trabalho provisórios, e a necessidade de fortalecer o comprometimento das equipes com os pacientes que apresentam sofrimento psíquico.

O projeto é um desdobramento de um processo iniciado há alguns anos, quando o município desenvolveu uma parceria com um dos hospitais filantrópicos de excelência por meio do PROADI-SUS, cujo objetivo foi apoiar o corpo técnico gerencial das Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde na organização dos macroprocessos da atenção à saúde. “Começamos a ideia do Ambular antes mesmo desse projeto. A gente passou por todas as exigências e o município ficou como ambulatório piloto, mas mantendo o nosso jeito de trabalhar, com os deslocamentos, as discussões com as equipes”, explica a coordenadora. No campo da formação dos residentes, foram realizados treinamentos com as equipes, por videoconferência, para lidar com questões como o surgimento de desastres sanitários.

 

Escutar

A única experiência direta de atendimento à população do projeto Ambular é o serviço denominado Escutar. Como o nome sugere, a iniciativa foi criada para oferecer apoio de escuta especializada, com abordagem breve focal, relacionado especificamente ao coronavírus e com público definido. O serviço foi disponibilizado inicialmente aos profissionais que estavam na linha de frente contra a pandemia.

Com o passar do tempo, a demanda foi se diversificando e absorveu, por exemplo, professores e alunos de um campus da Universidade do Rio Grande situado em São Lourenço do Sul. Eles ficaram retidos no município por conta da pandemia, o que gerou quadros frequentes de ansiedade e depressão. O serviço, que inicialmente era online, mas agora também se desenvolve presencialmente, contemplou ainda professores da rede pública, diante da dificuldade de adaptação ao trabalho online e, posteriormente, ao retorno presencial.

 

História

São Lourenço do Sul foi um município pioneiro na criação de um Centro Comunitário de Saúde Mental, em 1988, que se transformaria, quatro anos depois, no primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) municipal do Brasil. “Para sair de um modelo focado na ambulancioterapia, começamos a desenvolver uma rede de saúde mental em todos os pontos da atenção à saúde. Alguns exemplos foram a abertura de uma casa para moradores de rua com sofrimento psíquico e a criação de leitos psiquiátricos em hospital geral”, explica Flávio Resmini, que chegou ao município como médico psiquiatra da Marinha.

Pelo seu caráter inovador, o trabalho, que remonta à criação do próprio SUS, começou a chamar a atenção no país, impulsionando a presença de profissionais de outros estados como observadores. A transição do campo restrito da assistência para a formação de recursos humanos foi iniciada com a criação da Residência Multiprofissional, em 2011, através de parceria com o Estado, e da Residência Psiquiátrica, em 2013.

“O grande problema da saúde mental é a falta de preparo dentro da academia, gerando um desconhecimento do manejo dessas situações. Escuto muitos dos meus alunos dizerem que se soubessem antes o que aprenderam na Residência, teriam resolvido muitos problemas na sua área. Há alta prevalência de sofrimento psíquico nas comunidades e é preciso investir nisso”, conclui Flávio Resmini. São Lourenço do Sul tem hoje 14 UBS com 100% de cobertura da Estratégia Saúde da Família (ESF).

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