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Gestão | 03/07/2019

Relatos: segundo dia de apresentações da 16ª Mostra Brasil, aqui tem SUS

A 16ª Mostra Brasil, Aqui tem SUS foi encerrada na manhã desta quarta-feira (3) com a apresentação de dezenas de experiências em 13 salas do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde acontece o XXXV Congresso Nacional de Secretarias Municipais de Saúde. O público, além de participar de debates mediados por especialistas, pôde escolher por votação eletrônica a melhor apresentação nos dois dias de evento. Os mais votados serão premiados pela escolha do júri popular, se juntando às demais experiências selecionadas por uma equipe de avaliadores. No total, 88 trabalhos receberão diferentes premiações em solenidade realizada na quinta-feira (4), às 18h30, no Auditório Master do Centro de Convenções.

A Mostra se consolidou como um importante espaço de participação de gestores e trabalhadores do SUS. Este ano, 500 trabalhos foram inscritos, o que representa um crescimento significativo do compartilhamento de experiências dentro do Congresso do Conasems. “Além das premiações, a Mostra é fundamental para que os municípios sejam ouvidos e para que possamos promover a aplicabilidade das experiências nas nossas cidades. É muito bom ver os próprios gestores escutando os relatos”, avaliou a coordenadora do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) de Mafra-SC, Suzanne Cassias.

Pela segunda vez participando da Mostra na condição de apresentadora de experiências, ela trouxe ao evento o detalhamento sobre o processo de reorganização da Atenção Básica no município, para torná-la de fato a principal porta de entrada do SUS. Mafra-SC tem 56 mil habitantes e se destaca por ser o quarto município em extensão territorial do Brasil, o que traz novos desafios à organização do sistema de saúde.  O primeiro passo foi organizar um processo seletivo, entre 2014 e 2015, que aumentou a cobertura populacional de 45% para 100% da Estratégia Saúde da Família. O município tem hoje 18 equipes de saúde da família, sendo 5 rurais, 13 unidades básicas de saúde e 2 equipes do NASF. 

A partir da ampliação da cobertura, foram iniciados os processo de reorganização que incluem a melhoria do acesso a serviços especializados, mudanças nos fluxos de atendimento e protocolo, criação de sistemas de informação, organização da dispensação de medicamentos, dentre outros.  “Esse trabalho trouxe muito impacto para a saúde da população, que estava acostumada a enfrentar filas na policlínica, gerando o reconhecimento de que é muito melhor ter seu atendimento próximo de casa, com equipe de referência”, comemora Suzanne Cassias.

 

Serviço de saúde mais próximo da população 

Chapadão do Céu-GO tem 10 mil habitantes e uma população flutuante, que circula em torno da Usina Cerradinho Bioenergia, instalada no município. A dificuldade de acesso a informações, sobretudo pela baixa cobertura de internet, foi um desafio para a equipe de saúde que resolveu romper o isolamento com a implantação de um serviço de Telessaúde.  Foi montada na Unidade Básica de Saúde uma sala específica para a participação nas teleaulas, possibilitando a presença dos servidores. No total, o projeto realizou 2.378 aulas gravadas, 296 aulas on line e 118 teleconsultorias para profissionais de nível superior. “A experiência colaborou com a diminuição dos procedimentos hospitalares. De 2018 para 2019 os encaminhamentos para o hospital caíram de 80 para 67”, atesta a coordenadora Auriane Campos.

Incentivar boas práticas de aleitamento materno e complementação alimentar é o objetivo da experiência iniciada em 2015 em São Luís-MA, cujo foco é uma intervenção educativa junto às mães, através de rodas de conversa, e aos profissionais de saúde, com a participação de uma equipe de acompanhamento e monitoramento nas unidades. O projeto também tem realizado ações extra muros, através de campanhas em escolas e creches.

“Em apenas três escolas municipais conseguimos arrecadar 620 vidros a serem utilizados para armazenar leite materno em nossos bancos de leite”, afirmou a coordenadora de Saúde da Mulher, Criança e Adolescente, Cleidimar Souza. 

Em três unidades de saúde de referência são realizados cursos anuais para gestantes, onde são abordadas as necessidades e dúvidas características desse período. Já passaram pelo curso 380 gestantes. Para ampliar o acesso à informação, o projeto reproduziu três mil cartilhas de cuidado ao recém-nascido e três mil cadernetas da criança, além de realizar 106 campanhas entre 2017 e 2018 e um seminário com a presença de 120 participantes.

Na Bahia, uma experiência de cuidado com a saúde da mulher vai além do período reprodutivo, estimulando as usuárias a dançarem. A iniciativa simples do município de Coribe-BA reduziu quadros depressivos, uso excessivo de medicamentos, casos de diabetes, hipertensão arterial e obesidade, além de ter impacto direto na auto estima das participantes. Essa experiência surgiu de uma necessidade do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de oferecer alternativas de tratamento ao elevado número de pacientes com problemas de saúde mental, depressão e tentativas de suicídio. Iniciada como uma ação de planejamento da localidade denominada Colônia de Formosa, o trabalho logo se expandiu para toda a Atenção Básica, refletindo-se no número de participantes, que em pouco tempo subiu de 40 para 120.

“O nosso Grupo Saúde Dançante tem proporcionado às mulheres o contato com a dança, o alongamento e o treinamento funcional. Elas também passam por acompanhamento nutricional, médico e com o educador físico. Esta terapia motivacional, iniciada há dois anos, tem aumentado a sensação de bem estar e diminuído os quadros depressivos”, explica o educador físico Jeferson Silva, integrante da equipe.

 

O potencial do SUS em todo o país

“Há 30 anos, quando o SUS iniciava sua trajetória, costumávamos dizer que tínhamos umas cinco experiências em alguns estados do país que mereciam ser reproduzidas em todo território nacional. Agora percebemos essas mesmas experiências sendo apresentadas de forma evolutiva, com um adensamento de escala e escopo. A Mostra apresenta uma série de trabalhos onde a capacidade de escolha de um público alvo, seja em relação a patologias ou faixas etárias, fica evidente”, avalia o Chefe de Gabinete da Presidência da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Valcler Rangel, que participou da Mostra como comentarista das experiências.

O professor titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ricardo Ceccim, que participou da Mostra como um dos comentaristas dos trabalhos, destacou a importância de desenvolver no município políticas longitudinais, que possam ir além das experiências pontuais. Ele também chamou a atenção para a necessária composição de iniciativas, apresentadas na Mostra, que garantam o corpo a corpo entre profissionais, usuários, como também priorizem ações voltadas, por exemplo, ao uso de tecnologias como o Telessaúde. Como sugestão aos participantes da Mostra, ele ressaltou ainda a importância de investir no processo avaliativo, aferindo demandas e satisfação.