voltar

Gestão | 02/07/2019

Relatos: primeiro dia de apresentações da 16ª Mostra Brasil, aqui tem SUS

O XXXV Congresso Nacional de Secretarias Municipais de Saúde iniciou sua programação nesta terça-feira, dia 2 de julho, com a abertura da 16ª Mostra Brasil, aqui tem SUS. A maior Mostra já promovida pelo Conasems reuniu 500 experiências de todas as regiões do país, demonstrando o esforço coletivo de promover educação permanente por meio da troca de experiências e fortalecer os municípios através da união de atores responsáveis pela condução do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Ao todo, 17 salas do Centro de Convenções Ulysses Guimarães foram ocupadas por gestores e profissionais de saúde durante a 16ª Mostra Brasil, aqui tem SUS. Em média, vinte trabalhos apresentados ao longo do dia em cada sala, mediados por debates em torno dos desafios de manter no município o SUS vivo e efetivo diante das necessidades da população.  Uma das novidades da Mostra desse ano, além do grande número de experiências, foi a presença de profissionais de referência no SUS, seja nas áreas de gestão ou acadêmica, convidados para promover um debate entre os participantes, comentando as experiências e ampliando o processo reflexivo em torno do trabalho cotidiano no território.

O professor da USP, Áquilas Mendes, foi um dos comentaristas da Mostra. De acordo com ele, a Mostra representa muito bem o SUS efetivo que é praticado diariamente nos municípios. “Promover o encontro entre esses profissionais é excelente, muitos têm realidades parecidas e podem levar as ideias para implementar em seus municípios”.

Áquilas Mendes, professor da USP e comentaristas da Mostra 

“O próprio nome da Mostra já diz muito do seu significado. É o SUS que dá certo. O SUS que a mídia não divulga, mas que nós trabalhadores sabemos que funciona.  Esse é um espaço de exposição e sobretudo de fortalecimento para seguirmos em frente, sem desistir”, avalia uma das organizadoras do Núcleo Municipal de Educação em Saúde Coletiva do município de Imbé (RS), Camila Alves. 

Ela apresentou a experiência regional de educação permanente, iniciada em setembro de 2018, que reúne representantes de gestores, profissionais de saúde e controle social. Pela primeira vez o Conselho Municipal de Saúde esteve presente ajudando a construir mudanças que fortaleçam o eixo norteador da experiência, que é o acolhimento. “A palavra acolhimento pode ter um significado muito comum para quem está na unidade de saúde ou no hospital. Mas e para quem está na central de marcação de consultas ou na vigilância, será que tem o mesmo significado?” 

Diante desse questionamento eles partiram para um trabalho de qualificação de todos os recepcionistas, abrindo um processo de escuta onde as dificuldades no cotidiano de trabalho foram ouvidas e modificadas. O resultado da iniciativa, que se encerra em setembro de 2019, está sendo mensurado através das ouvidorias e será apresentado em uma mostra estadual.

Saúde Mental

Solange Cristina Vialle apresentou o processo formativo em saúde mental da região de saúde de Franco da Rocha (SP), composta por cinco municípios. A região abriga o complexo do Juqueri, que foi um marco da Reforma Psiquiátrica e da luta antimanicomial. “O nosso desafio foi implementar a Rede de Atenção Psicossocial e para isso contamos com o apoio do Instituto de Saúde, uma instituição de ensino”, relatou. Cinco apoiadores em saúde mental foram formados e passaram a atuar em cada um dos municípios da Região como facilitadores. 

Transgredir protocolos, melhorar a comunicação entre os serviços, rever as filas de encaminhamentos para a psiquiatria foram algumas das metas alcançadas. O desafio agora é garantir a sustentabilidade do projeto junto à gestão. Pela primeira vez apresentando uma experiência na Mostra, Solange considera o espaço privilegiado, rico e produtivo para a troca de experiência. “Quando a gente abre esse mecanismo de escuta solidária, estamos realmente vivenciando um processo de educação permanente”, atesta. 

Processos de trabalho pouco criativos, sobrecarga de responsabilidade sobre as enfermeiras e o baixo investimento em promoção e prevenção resultaram na criação da Comissão de Eventos e Comunicação no município de Regente Feijó (SP). Com população de 19.860 habitantes e cobertura de 100% da Atenção Básica, a gestão investiu na descentralização do trabalho e no protagonismo de outros atores, como os agentes comunitários de saúde, que ajudaram no processo de aproximação com a comunidade. 

Iniciativas simples como a formação de grupo gestores, que se reúnem embaixo de árvores, e a criação de uma página no Facebook para disseminar informações possibilitaram uma série de conquistas como a garantia de uma ambulância no bairro rural, a realização de encontros de saúde mental e modificações nos protocolos de atendimento. “As enfermeiras, que manifestaram inicialmente resistência à mudança, entenderam que a iniciativa tinha o objetivo de fortalecê-las e mudar a forma como a população vê o serviço”, afirmou Fabiana Sabino, secretária de saúde do município. 

O professor titular de Saúde Coletiva, José Ivo, participou de uma das mesas como comentarista das experiências. Ele destacou a importância de falar sobre saúde mental em uma sociedade medicalizada como um ato de resistência. “Os municípios estão mostrando que temos uma trilha a percorrer diante de alguns retrocessos na política de saúde mental”, ressaltou. José Ivo destacou a necessidade de fortalecer processos comunicativos onde as unidades de saúde se comuniquem com outros espaços da rede e com a população. “Precisamos promover diálogos interculturais, para que possamos entender os problemas, garantindo a comunicabilidade”, afirmou. Ele ressaltou a necessidade de reconhecer os diversos saberem que orientam a vida e a potência que existe em cada um para reinventar seus processos de trabalho.  

HIV/aids: Diminuir o preconceito de gênero, raça e sexualidade

Empoderar os jovens para que se tornem multiplicadores de informações que contribuam com o diagnóstico precoce e, consequentemente, o tratamento de HIV/Aids. Diminuir o preconceito de gênero, raça e sexualidade entre adolescentes e tornar as unidades de saúde um lugar de acolhimento das necessidades desses jovens. Esta foi a experiência apresentada por Jadilson Neto, um dos idealizadores do Projeto Viva Melhor – Sabendo Jovem. Segundo ele, houve uma mudança no perfil das pessoas contaminadas pelo vírus em relação ao início da epidemia no Brasil. Se antes a doença atingia mais a classe A, branca, homossexual;  hoje a maioria contaminada é formada por homens, com baixa escolaridade e negros.

“Trabalhamos com o empoderamento juvenil, para que eles dialoguem entre si. A nossa meta é contribuir para que adolescentes e jovens cheguem ao posto de saúde, façam o teste e, se necessário, tenham garantido o tratamento”, afirmou. Para tanto, o projeto foi estruturado em três etapas, que incluem a formação de um grupo composto por 30 adolescentes e jovens de diferentes níveis de escolaridade, opções sexuais, raça e gênero, para se tornarem multiplicadores nas escolas. Estes passam a capacitar outros jovens e dialogar com um grupo mais amplo utilizando a internet como ferramenta de comunicação.

Um dos desafios foi enfrentar o preconceito entre o próprio grupo em formação e atuar para que os profissionais de saúde estejam preparados para lidar com as dificuldades específicas desses jovens. Em sete escolas envolvidas com o projeto, foram detectados muitos problemas relacionados à depressão e ao suicídio. Como resultado, quase 900 pessoas foram capacitadas, 330 estudantes foram formados e 34 facilitadores habilitados, superando as expectativas. Dezesseis jovens com HIV positivo, com menos de 24 anos, foram direcionados aos grupos de adesão ao tratamento.   

Mais experiências exitosas que fazem a diferença 

Ao assumir a secretaria de saúde do município de Tabaporã (MT), em 2017, Célia Soffa encontrou equipes desmotivadas e com vínculo precário com os usuários. Com o apoio do COSEMS/MT, a secretaria iniciou um processo de valorização profissional,  através de um trabalho de integração das equipes por meio de atividades lúdicas. “A motivação dos profissionais foi maravilhosa e se refletiu diretamente no cuidado ao usuário. Colocamos caixinhas nas unidades para receber elogios e reclamações, e invertemos o percentual de reclamações, que era de 80%”, comemora a gestora.   

Andreia Viana, de Taboão da Serra (SP), apresentou a Estratégia Amamenta e Alimentação Brasil, voltada ao incentivo ao aleitamento materno e à nutrição de crianças de até dois anos. O município, de 288 mil habitantes, tem a maior densidade demográfica do país. A realização de 48 oficinas, com quase 500 profissionais capacitados, e a formação de tutores nas UBS possibilitou mudanças nos indicadores, redução da obesidade infantil, qualificação de 108 profissionais nas UBS, criação de grupo de pré-natal e puerpério e formação de equipe multiprofissional no Centro Obstétrico do município.   

Confira as galerias de foto com os registros do 1º dia de apresentações da 16ª Mostra Brasil, aqui tem SUS:

0149_XXXV_Conasems_2019_YuriAlvetti_Kardel_LIVE_MEDIA

 

6989_XXXV_Conasems_2019_YuriAlvetti_Kardel_LIVE_MEDIA