Meu Sorriso do Ano, por Paulo Capel Narvai - CONASEMS
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Gestão | 31/01/2011

Meu Sorriso do Ano, por Paulo Capel Narvai

Eu sei que você, caro leitor, acha que, em 2010, o prêmio Meu Sorriso do Ano só poderia ir para o Lula ou para a Dilma. Sim, são excelentes opções, mas… veja bem… Um dos porteiros do meu prédio vive repetindo “Veja bem, Seo Paulo…”, quando tem que me contar algo que ele considera difícil dizer.

O fato é que, veja bem caro leitor, a Presidenta Dilma – sim ela quer ser chamada de Presidenta e não presidente – embora ainda esteja no começo da sua história, mesmo que se encontre ainda forjando a sua liderança política, por razões óbvias, merece o Prêmio. Fez sua estréia em eleições justamente à Presidência da República – e ganhou. Superou preconceitos (mulher, ex-guerrilheira) e desconfianças (“não tem experiência administrativa”, “nunca foi eleita para nada”) e conquistou exatos 55.752.529 votos. Além do mais, ela poderia ficar com o Prêmio, pois, ao contrário de milhões de brasileiros que perdem dentes por falta de educação, de apoio e orientação familiar, por serem pobres e despossuídos, como dizia Florestan Fernandes, Dilma perdeu um dente sob tortura durante a ditadura militar. Não é todo mundo que perde dente sob tortura, e isso a vincula, digamos, odontologicamente, ao Prêmio Meu Sorriso do Ano 2010. Apesar dessa perda, está hoje com o sorriso relativamente em ordem – apenas um pouco prejudicado pelo desalinhamento daqueles dois incisivos centrais superiores que, aliás, já fazem a alegria de 10 em cada 10 cartunistas. Dilma sorriu muito, principalmente ao ser diplomada Presidenta da República pelo Tribunal Superior Eleitoral, ocasião em que feliz registrou ser “a primeira mulher eleita presidenta da República”, e disse que sua eleição “rompe os preconceitos, desafia os limites e enche de esperança um povo sofrido.” Sorriu também no dia da posse, protegida no Rolls-Royce presidencial debaixo daquela chuvarada, e ao jurar cumprir a Constituição e defender o Brasil. Poderia ser Dilma, mas veja bem…

Um dos amigos que integram o colégio eleitoral deste Prêmio Meu Sorriso do Ano afirmou que “indico o Lula, pois ele deixa o Brasil de alguma maneira melhor do que encontrou, apoiou a nossa Saúde Bucal e é uma figura emblemática e carismática importante, mesmo no apagar das luzes de seus mandatos.” Um amigo ponderou que foram “avanços nunca dantes imaginados” e que eu deveria pensar “na criação do prêmio-extra ‘Sorriso da Década'”, pois estamos no final da primeira década do século e que isso daria maior “amplitude ao Prêmio” e faria justiça “ao metalúrgico que contribuiu com milhões de sorrisos, quer pelo Brasil Sorridente, quer por ter viabilizado a geração de milhões de empregos, com mais comida na mesa, mais moradia e outras conquistas do povo brasileiro.” Outro consultado chegou a ameaçar: “se o Lula não for premiado neste ano, é porque você está fraudando as eleições”. Ao ler, ri, pois entendi perfeitamente o desconsolo do meu dileto eleitor, com essa novela de ano após ano o Lula ser indicado, receber uma montanha de votos, mas não ter ganhado nada até hoje.

Mas, são coisas da vida. Nem tudo é democracia nesta vida…

É verdade que ambos, Lula e Dilma, estiveram inseparáveis em 2010 e, sem dúvida, logo se credenciaram ao Prêmio deste ano. Por isso mesmo, por inseparáveis, escolher um implicaria preterir o outro. Mas como, se um e outra – ou outro e uma – são praticamente como unha e carne? Como separá-los para fins, digamos… eleitorais? Difícil.

Aliás, é difícil até mesmo não falar de Lula já no começo desse artigo. É aquela típica situação em que não dá para iniciar o texto falando de outra coisa, pois, neste 2010, além de receber outra montanha de votos das amigas e amigos que me ajudam nessa tarefa, Lula chegou ao último mês do seu segundo governo (2007-2010) batendo novo recorde de aprovação pessoal. Segundo a pesquisa CNI/Ibope, divulgada em dezembro, a aprovação atingiu 87%, uma marca na história republicana brasileira. Em 29 de dezembro, a popularidade de Lula, aferida pelo Instituto Sensus, era igualmente de 87%. Sim, caro leitor, eu sei: há reconhecimento geral de que o ex-operário e líder sindical foi capaz de formar e comandar um governo que, apesar de frágil em várias áreas estratégicas para diminuir as iniqüidades do país, logrou avanços importantes, de grande significado econômico e social. Seu êxito na chefia do Estado brasileiro projetou-o internacionalmente, emergindo, na primeira década do século, como um dos líderes mais admirados e respeitados em escala global. Sim, poderia ser Lula, mas veja bem…

No bloco dos políticos, um membro do colégio eleitoral ponderou que talvez o Prêmio deste ano devesse ser dado a Paulo Maluf, eleito novamente em outubro, desta vez deputado federal. Ele é a encarnação de “tudo de abominável da política deste país.” Sua presença na Câmara dos Deputados parece indicar que “nada mudou em termos de ética. Ele não só sorri, como dá gargalhadas de todos nós que nos consideramos honestos! Quando esse país vai mudar???” – interrogou perplexo. Sim, poderia ser Maluf, mas veja bem…

Uma amiga me pediu para incluir o Tiririca entre os indicados em 2010, o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Alegou que “daqui pra frente, qualquer processo eleitoral que se preze terá de incluí-lo…”. Resisti em princípio, mas resolvi aceitar a sugestão. Achei justo. Mas o cidadão Francisco Everardo Oliveira Silva, nascido em Itapipoca, Ceará, num Dia Internacional do Trabalho (1º de maio de 1965) recebeu apenas um voto favorável e vários votos contra no meu colégio eleitoral. Outra amiga disse que ele “é a personificação do desencanto da nossa sociedade com a política, colocada, por equívoco (?), no mesmo balaio da má politicagem. Penso que essa indistinção favorece o já estabelecido – acreditar que os governos são naturalmente corruptos e os políticos são todos iguais gera uma inação por parte da sociedade. Parece que isso interessa bem às elites, não? Assim, combatamos os Tiriricas.” Tenho porém a convicção de que, para ele, nossas opiniões não têm, veja bem, rigorosamente, a menor importância.

Outro bem cotado foi Muricy Ramalho, o técnico do Fluminense, campeão brasileiro. Sorriso não é propriamente o forte do sujeito, que tem fama de mal humorado e, às vezes, escorrega feio nas tais “relações humanas”, sobretudo quando o humano que se relaciona com ele é um jornalista… Bem que merecia o Prêmio, pois se insere naquele grupo de gente que aparece nesta lista todos os anos, e se caracteriza por “jogar para o alto” um monte de vantagens, grana, poder, para simplesmente fazer o que gosta, o que lhe dá prazer, estar onde e com quem quer estar etc. Ao recusar o cargo mais cobiçado por todos os técnicos de futebol do país, e invejado por todos os colegas planeta afora, o de técnico da seleção brasileira, Muricy disse que apenas honrou a palavra dada e o contrato que assinou. Disse mais: que aprendeu isso com o pai e que não via razões para fazer diferente. Não é pouco. Se é isso mesmo ou não, o tempo dirá. Mas que ele sorriu bonito no começo de dezembro, com o invejado título de campeão brasileiro de futebol, isso é indiscutível. Poderia ser o Muricy, mas veja bem: ninguém votou nele no meu colégio eleitoral.

Já no finalzinho do ano, no apagar das luzes, já nos “últimos minutos da prorrogação”, uma notícia n’O Globo disparou várias indicações para o Prêmio: a índia Tenile Mendes, de 22 anos, acabara de se formar em odontologia na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Para estudar precisou da aprovação das lideranças da aldeia onde cresceu e ingressou na universidade por meio do programa de políticas afirmativas, aprovado em 2004 e implementado no ano seguinte. A UFPR destina dez vagas aos povos indígenas de qualquer região do país. Agora, com o diploma nas mãos, Tenile estaria disposta a voltar para a aldeia de cerca de 3.500 pessoas para “cuidar da saúde bucal” de seu povo. Tenile foi a primeira índia a se graduar pela instituição paranaense, a primeira universidade criada no Brasil. No discurso do paraninfo, o professor Jairo Bordini Junior ressaltou a validade e a importância da inclusão social. “A inclusão é um caminho que deve ser seguido e incentivado. As dificuldades quanto ao aprendizado são as mesmas para todos os alunos, mas não podia deixar que a pressão social interferisse no avanço dentro do curso. E com esforço e dedicação, a Tenile conseguiu”.

São muito recentes as experiências de universidades brasileiras com abertura de vagas para índios. Segundo o professor Rui Vicente Oppermann, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mantém “com grandes dificuldades” um programa que possibilita o ingresso de um indígena por ano no curso de graduação em Odontologia. Para ele, “as políticas afirmativas representam sim um reparo (ainda que bastante modesto) às populações perseguidas ao longo da nossa História das quais os indígenas e os negros são os principais representantes.” O professor Petrônio Martelli, coordenador do curso de Odontologia de Caruaru-PE, considera que a inclusão de alunos provenientes de “populações vulneráveis na profissão odontológica está ganhando robustez” e afirma: “temos em Caruaru um Xukuru no segundo período de odontologia, oriundo do município de Pesqueira-PE.” Segundo Martelli essa inclusão está sendo “possível graças ao FIES”, o Programa de Financiamento Estudantil do governo federal. Bem, por todas essas razões, poderia ser a índia Tenile, mas veja bem…

Após tantos “veja bem”, o fato é que o Prêmio Meu Sorriso do Ano ficou com um sujeito chamado Manuel González. Sim leitor, ele não é conhecido do público. Você que me lê agora também não tem a menor idéia de quem é esse Manuel Gonzáles, não é? Pois, então, deixe-me explicar isso. Manuel é o paramédico do Corpo de Bombeiros do Chile que participou do resgate dos 33 mineiros que permaneceram 70 dias presos na mina San José e foram, finalmente, resgatados numa operação sem precedentes, no dia 13 de outubro. O mundo se comoveu com os 33 mineiros – embora, como assinalou um amigo consultado, tenha faltado na cobertura do assunto “uma denúncia contundente das péssimas condições de segurança no trabalho que ameaçam ainda hoje milhares de trabalhadores do setor de mineração em todo o mundo, naquela que é considerada a profissão civil mais perigosa e insalubre existente.” O fato é que os mineiros foram bravos, resistiram e acreditaram. Mas, meus caros, eles estavam a quase 700 metros de profundidade e não lhes havia muito o que fazer. Claro que, nessas condições, não perder a cabeça não é pra qualquer um. Mas o nosso bombeiro mereceu ganhar o Prêmio pelo fato de que, não estando lá entre os 33, aceitou a missão. Virou o 34º herói. Ou o primeiro herói, dependendo do ponto de vista. Manuel podia ter se recusado, mas não: aceitou a tarefa de se meter no interior da terra, quase 1 km planeta adentro, para testar a cápsula Fênix, utilizada para o resgate. Meteu-se aonde não estava, não tinha sido chamado e não precisaria estar – a não ser se, como efetivamente fez, colocasse a necessidade de cumprir seu dever acima dos riscos à sua própria vida. Foi o primeiro a chegar e o último a sair. Permaneceu lá nas profundezas até que o último mineiro fosse resgatado. Os 33 mineiros foram bravos, mas esse Manuel González foi mais, muito mais do que um bravo: com sua ação colocou o Ser Humano “um degrau” acima, num mundo em que os degraus abaixo parecem não ter limites. E agiu desinteressadamente, por dever profissional. Como disse uma amiga que cravou seu voto no bombeiro do Chile, “uma bela profissão, que não é valorizada nem remunerada como deveria, mas que sem dúvida mostra o real valor da vida humana.” E concluiu: “Esse é o cara!” Após o cumprimento da difícil e inusitada missão, Manuel González, rosto ainda tenso, abriu um largo e muito significativo sorriso. E eu, que não creio, me perguntei: “Meu Deus! Que sorriso é esse?” É o Sorriso do Ano 2010.

Paulo Capel Narvai – Cirurgião-Dentista Sanitarista. Mestre e Doutor em Saúde Pública. Professor Titular de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Autor de ‘Odontologia e saúde Bucal Coletiva’ (Ed.Santos) e de ‘Saúde Bucal no Brasil: Muito Além do Céu da Boca’ (Ed.Fiocruz). 

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