Vulnerabilidade social e dificuldade de acesso: como está sendo a vacinação em comunidades quilombolas? - CONASEMS

Vulnerabilidade social e dificuldade de acesso: como está sendo a vacinação em comunidades quilombolas?

Em Alcântara-MA, a vacinação em algumas comunidades quilombolas acontece em igrejas, escolas ou em casas emprestadas por moradores. A distância da sede para alguns povoados chega a ser 70 km, porém, o município foi um dos primeiros do Brasil a conseguir vacinar toda a população 

Os povos quilombolas representam 70% da população de Alcântara-MA, estimada em 22.112 habitantes. Embora o município maranhense esteja situado na região metropolitana de São Luís, o acesso a algumas das 214 comunidades que o compõem – das quais 204 são quilombolas – só é possível por estradas carroçais ou via barcos pelo mar. Os quilombos são habitados por descendentes e remanescentes de pessoas que foram escravizadas, que têm como característica a organização econômica baseada na agricultura e o resgate e preservação do modo de vida tradicional dos seus povos ancestrais de origem africana.

Assim como várias comunidades quilombolas pelo Brasil, essa população que mora em Alcântara vive em situação de vulnerabilidade social. A maioria depende de programas sociais do governo e sobrevive da pesca e da agricultura. Por isso, eles foram incluídos entre os grupos prioritários a receber a vacina contra a Covid-19, segundo critérios estabelecidos pela Política Nacional de Imunização (PNI). Em Alcântara, a vacina foi chegando lentamente, em lotes contendo apenas 50 ou 60 doses do imunizante. Após reivindicação da Secretaria Municipal de Saúde, o município recebeu, no final de março, 9.275 doses em uma única remessa, que foram aplicadas em apenas uma semana. Pouco mais de 15 mil moradores estão em idade vacinal prioritária.

 

“Somos o primeiro município do Brasil a alcançar com a vacinação toda a população acima de 18 anos e eu atribuo esse resultado ao trabalho das equipes de saúde da família e a todos os profissionais da Secretaria. Tivemos equipes que voltavam meia noite das comunidades porque precisavam esperar o rio descer”, afirma a Secretária Municipal de Saúde, Sormanne Branco Oliveira. Nas regiões de difícil acesso, em quase toda zona rural, a logística para levar a vacina torna-se mais complicada. Para chegar às 50 famílias da ilha do Cajual, por exemplo, os profissionais de saúde precisam se deslocar por barco e caminhar mais 40 minutos a pé, carregando caixas com gelo e imunizante. Em Macajituba 3, onde vivem 40 famílias, só é possível chegar com carros com tração porque as estradas não são pavimentadas.

Alcântara possui nove equipes de saúde da família, das quais sete atuam na área rural. Toda imunização acontece de forma descentralizada e os casos positivos da doença ficam em isolamento domiciliar sob acompanhamento dos agentes comunitários de saúde. A cidade mantém um hospital com 20 leitos ativados e os casos que necessitam de atendimento de maior complexidade são transferidos para São Luís. Uma das estratégias utilizadas desde o início foi a testagem em grande escala.

No início de setembro estavam sendo vacinados os jovens de 12 a 17 anos. A cobertura vacinal da dose 1 chegou a 100% e da dose 2 estava em 70% no período. Em quase dois anos de pandemia, 19 pessoas morreram vítimas da doença. Após a primeira dose da vacina, os profissionais perceberam uma redução drástica da contaminação e agravamento por Covid-19 nos quilombos.

Dedicação e coragem

 

A coordenadora da Atenção Básica, Ligia Raquel Vieira Paixão, era, até o final de agosto, enfermeira da ESF de Oitiua, um povoado polo que atende 13 microáreas. Cerca de 1.100 famílias vivem em quilombos na região. “O trabalho tem sido gratificante, porém árduo. Lembro de algumas situações nas quais me emocionei. Na comunidade do Santo Inácio, uma senhora acamada, com mais de 80 anos, que não queria tomar vacina com medo dos efeitos colaterais e por crenças religiosas, recusou todas as tentativas dos agentes que estiveram em sua residência. Como ela dizia que orava para se manter protegida da doença, eu sugeri que orássemos para que a vacina não tivesse nenhum efeito adverso. E assim ela aceitou e já tomou a segunda dose”, rememora.

Nas microáreas de Oitiua não há Unidades Básicas da Saúde (UBS). A vacinação acontece em igrejas, escolas ou em casas emprestadas por moradores. A distância da sede para alguns povoados é de 70 km e nos picos de vacinação costuma-se dizer que os profissionais têm horário para sair, mas não têm para retornar. “É um povo que precisa de mais atenção por ser muito carente de recursos financeiros, de acesso à educação. Tem que existir um olhar mais humanitário. Eles lutam para manter suas tradições e têm uma cultura diferenciada, muito forte, que vamos aprendendo aos poucos”, conta a enfermeira.

Para a secretária municipal de saúde, o trabalho exige, além de dedicação, muita coragem. “Eu já tenho quase 18 anos de formada em enfermagem e a minha paixão é o SUS. Me contaminei logo no início, mas nunca tive medo. Comecei a descer para fazer atendimento e disse aos meus colegas ‘temos que continuar trabalhando porque a população precisa da gente’. O vírus está aí. Quem escolhe trabalhar na saúde tem que ter força de vontade e coragem. O que me deixou fortalecida foi a vacina, porque ela é realmente eficaz”, desabafa a secretária. Sormanne perdeu a avó e o pai de seus três filhos, vítimas de Covid-19.

Reportagem: Giovana de Paula – colaboradora externa do Conasems

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