Planejamento e integração entre Vigilância e AB reduzem efeitos da pandemia em Rio Verde-GO - CONASEMS

Planejamento e integração entre Vigilância e AB reduzem efeitos da pandemia em Rio Verde-GO

Durante a pandemia, um dos maiores frigoríficos do país, sediado na cidade, teve mais de 50% dos seus funcionários contaminados ao mesmo tempo. A partir de um trabalho feito em seis eixos de atuação, o município reorganizou a AB e promoveu a integração com a vigilância em saúde.

Rio Verde é um município do Estado de Goiás, com 247 mil habitantes, considerado um polo regional em torno de 31 municípios, o que representa cerca de um milhão de habitantes. A base de sustentação econômica é o agronegócio, incluindo a agroindústria, com destaque para a grande produção de soja, milho, sorgo, leite e proteína animal. Em uma das fases de alto índice de contaminação por Covid-19, um dos maiores frigoríficos de abate de frango e suíno do país, sediado na cidade, teve mais de 50% dos seus funcionários contaminados ao mesmo tempo. A indústria tem aproximadamente nove mil trabalhadores, o que exigiu um esforço gigantesco da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) para testar, afastar e monitorar todos os casos, em um trabalho que só foi possível através da integração entre Atenção Primária em Saúde (APS) e Vigilância em Saúde (VS).

A primeira providência foi testar todos os funcionários e seguir um protocolo de acompanhamento estabelecido para os pacientes suspeitos e confirmados. Um comitê intersetorial definiu as ações prioritárias de enfrentamento à pandemia na APS de acordo com seis eixos. Seguindo as determinações do quarto eixo, que se refere ao cuidado individual dos casos confirmados ou suspeitos de Covid-19, os trabalhadores da agroindústria afastados passaram a ser acompanhados diariamente por profissionais de saúde da APS, por um período que variou entre 10 e 14 dias, através de telemonitoramento. Aqueles que tiveram os sintomas agravados foram referenciados para uma unidade de pronto atendimento, que por sua vez poderia encaminhá-los ao hospital municipal ou ao hospital de campanha.

Para diagnosticar e tratar esses e outros pacientes, os profissionais da Atenção Primária foram capacitados de acordo com protocolos clínicos e de biossegurança, como também passaram a realizar ações de promoção da saúde para orientar a população sobre os mecanismos de cuidado e autocuidado contra a doença, de acordo com o Eixo Educacional. Considerando que em apenas uma empresa do município mais de 4 mil pessoas testaram positivo ao mesmo tempo, supõe-se a necessidade de um grande investimento em infraestrutura para dar conta das necessidades de saúde da população. Através do Eixo Organizacional, os fluxos de atendimento foram modificados nas UBS e os horários ficaram estendidos para aumentar a oferta e diminuir a contaminação cruzada em decorrência de aglomeração.

Uma vez que um funcionário da empresa, ou outro morador da cidade, recebia atendimento na UBS mais próxima, era necessário criar condições para esse cuidado, através da disponibilização de equipamentos de proteção individual (EPI) para profissionais de saúde, como também de medicamentos, equipamentos, insumos e testes para diagnosticar e tratar os pacientes. As condições de funcionamento dessas unidades foram estabelecidas no Eixo Assistencial. Outra grande contribuição para o enfrentamento à pandemia foi a realização de uma parceria entre o Departamento de Transporte Sanitário da SMS de Rio Verde e a APS para a disponibilização de transportes exclusivos de pacientes com Covid-19, com quadros de agravamento, das UBS para unidades especializadas. Em 2020 e até abril de 2021 foram atendidas 8.768 solicitações de transporte sanitário.

Pós-Covid

Um desafio imposto ao SUS, que deve perdurar por muito tempo, é o enfrentamento das consequências da Covid-19, que tem deixado sequelas motoras e respiratórias em muitos pacientes. Rio Verde criou então o Eixo Continuidade do Cuidado, que se refere à oferta de assistência ambulatorial pós-covid a partir de um projeto desenvolvido pela Secretaria Estadual de Saúde denominado Reabilita Goiás. Pessoas que estiveram por muito tempo internadas e mantêm sequelas da doença fazem reabilitação com educadores físicos e fisioterapeutas da APS até se recuperarem.

Todo esse esforço de organização foi fundamental para suprir a deficiência de cobertura da Atenção Primária, que não chega a 50% da população do território. “O grande diferencial do trabalho na APS foi o planejamento estratégico. A nossa cobertura é baixa e com a pandemia muitos profissionais foram afastados, diminuindo ainda mais um quantitativo de pessoas que já era pequeno. Conseguimos fazer tudo isso acontecer graças ao planejamento e à educação em saúde”, comemora Raquel Nogueira Salviano, cirurgiã-dentista, especialista em Saúde Pública e Vigilância Sanitária e pesquisadora responsável por escrever trabalhos científicos dentro da APS.

“A estratégia fundamental foi o planejamento com o olhar externo. Sentávamos e pensávamos como planejar com base nos dados científicos que tínhamos em mãos. A partir dessas evidências, tomávamos a decisão com muita transparência. A maior dificuldade foi a adesão da comunidade, porque exigia uma mudança de comportamento social e a população estava submetida à disseminação de notícias falsas. Tivemos que correr contra o tempo”, recorda o secretário de saúde, Djan Barbosa de Freitas. Segundo o gestor, em período recorde, a oferta de leitos de enfermaria e UTI foi ampliada, com 75 novos leitos de UTI; o hospital de campanha foi aberto, com mais de 1.400 atendimentos; e a compra de equipamentos como cateter de alto fluxo impediu que cerca da 80% das pessoas com agravamento fossem entubadas.

Apoio à Vigilância

As ações de Vigilância são transversais a todo trabalho desenvolvido na Atenção Primária em Rio Verde.  Visando fortalecer ainda mais essa integração, foi desenvolvido o Eixo Apoio à Vigilância em Saúde. “Desde o início do enfrentamento à pandemia, a Vigilância esteve muito perto da Atenção Primária. O monitoramento e os inquéritos epidemiológicos – ações de Vigilância – foram realizados por profissionais da Atenção Primária em função do vínculo com a população e da relação estabelecida no território. Foram feitas também testagens em massa em todas as unidades e vacinação, com equipes da APS assumindo esse papel”, detalha o secretário de saúde.

A parceria se desenvolveu a partir de alguns parâmetros, como a estratégia de testagem em massa de três grupos: profissionais de saúde da APS, servidores da educação no período de volta às aulas e trabalhadores de grandes empresas, a exemplo do frigorífico de abate de frangos e suínos. Dependendo da necessidade, esses grupos prioritários voltavam a ser testados periodicamente. “Desenvolvemos também um trabalho denominado Monitores Covid, em que disponibilizamos pessoas treinadas para atuarem nos grandes centros comerciais, no sentido de orientar a população sobre distanciamento social, biossegurança e uso adequado das máscaras e do álcool. Foi uma ação importante por ter muita relação com a Vigilância em Saúde”, afirma Raquel.

Outra estratégia foram os inquéritos epidemiológicos para traçar um perfil das áreas do município com maior índice de contaminação por Covid-19 e estabelecer um planejamento direcionado a esses locais. Os mapeamentos eram feitos da seguinte forma: a partir do mapa da cidade, eram escolhidas aleatoriamente ruas para realizar testes de Covid-19. Cerca de 30 equipes faziam a investigação epidemiológica em diversos pontos da cidade em um dia. Nos lugares onde era detectado maior número de casos, havia um direcionamento das ações, que envolviam, por exemplo, o trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde com orientações para a prevenção de agravos. Cada inquérito resultava em uma listagem de casos positivos, que apesar de serem, na maioria das vezes, assintomáticos, eram acompanhados junto com a família via telemonitoramento.

Para o secretário municipal de saúde, que assumiu a pasta em janeiro de 2021 ao deixar o cargo de diretor de planejamento, o SUS desempenhou um papel fundamental na pandemia. “A grande maioria dos leitos que foram ofertados para enfrentamento da pandemia vieram do SUS, como também os respiradores e equipamentos sofisticados que nem a rede privada conseguiu disponibilizar. Nenhum paciente morreu sem assistência. Para mim, é muito gratificante expandir o acesso de forma integral, atendendo os princípios do SUS”, conclui Djan Barbosa.

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