Florianópolis-SC fortalece Atenção Primária para responder à pandemia - CONASEMS

Florianópolis-SC fortalece Atenção Primária para responder à pandemia

A descentralização do cuidado no enfrentamento à Covid-19 norteou o trabalho da gestão municipal em Florianópolis-SC. Com o surgimento da pandemia, a reprogramação do modelo de assistência se deu a partir de um desenho de gestão que vinha sendo historicamente construído, pautado na Atenção Primária em Saúde (APS) forte e no compartilhamento de decisões, com base em evidências científicas, entre a Gerência de Integração Assistencial e a Gerência de Vigilância Epidemiológica. Buscava-se embasar as discussões do Comitê Técnico de Enfrentamento à Covid-19, grupo decisório formado logo no início da Pandemia.

“A opção de não centralizar o cuidado funcionou bem em Florianópolis, mas não é uma realidade para todos os municípios brasileiros. Como a nossa Atenção Primária em Saúde é muito fortalecida, fez mais sentido incorporar a ela essa nova demanda, do que criar um espaço de fixação excessiva no atendimento à Covid-19, considerando a responsabilidade da APS no território e entendendo a importância da integralidade”, conta Filipe De Barros Perini, médico infectologista e ex gerente da Gerência de Integração Assistencial.

Nesse sentido, todo esforço se voltou à necessidade de oferecer subsídio aos profissionais que estavam na ponta para responder à demanda da população. Em cada uma das 49 unidades básicas de saúde foi montada uma sala exclusiva para atender sintomáticos respiratórios. Outra estratégia para organizar o atendimento a esta demanda e atenuar a sobrecarga da APS foi a utilização do Alô Saúde, um dispositivo voltado à avaliação pré-clínica, com o objetivo de dar encaminhamento aos casos, de acordo com cada situação. Pessoas com sintomas mais graves eram orientadas a buscar atendimento clínico na sua unidade de referência ou em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), enquanto outras poderiam ser encaminhadas para teste de confirmação da doença.

O trabalho integrado entre a Gerência de Vigilância Epidemiológica e a Gerência de Integração Assistencial teve como primeiro desafio criar protocolos para orientar a conduta dos profissionais da linha de frente, com base em evidências científicas e antecipando, em muitas situações, um debate que ainda engatinhava em âmbito nacional. “Passamos por períodos onde havia apagões de orientações sobre condutas nacionalmente, o que nos levou a antecipar as recomendações com base em um tripé que alinha as ações de assistência, de epidemiologia e sanitárias”. Fizemos inúmeras revisões de protocolos, que definiram, dentre outros temas, a continuidade da notificação e o rastreamento dos casos leves em um momento em que não havia consenso no país”, exemplifica a médica, doutora em epidemiologia e gerente de Vigilância Epidemiológica do município, Ana Cristina Vidor.

 

Desde o primeiro momento da pandemia, o trabalho em conjunto envolvendo as áreas de Assistência e Vigilância funcionou de forma muito integrada. Cabia à Assistência promover a orientação e o monitoramento clínico dos casos e à Vigilância realizar a investigação epidemiológica, monitorando os deslocamentos e rastreando os contatos para evitar a disseminação. No segundo semestre daquele ano, no entanto, o aumento acelerado no número de casos levou a uma mudança de estratégia para fazer uso de tecnologias que promovessem a automação de parte do trabalho de investigação de casos, considerando o crescimento progressivo dos mesmos.

Os casos positivos recebiam uma mensagem via whatsapp para preencher um formulário no Google Form, que possibilitava à Vigilância dar prosseguimento à investigação epidemiológica de maneira mais ágil através do rastreamento de contatos e orientações aos usuários sobre conduta em relação à sinais de gravidade da doença e ao isolamento.

No final de 2021, com a introdução da variante Ômicron no país, mais uma avalanche de casos impulsionou uma nova estratégia da Vigilância. “Nunca tentamos centralizar o atendimento, mas como a demanda se tornou muito alta, para aliviar as unidades de saúde montamos oito centros de testagem espontânea em vários pontos do município”, diz a coordenadora da Vigilância. Esses espaços funcionam sob a supervisão do LAMUF – Laboratório Municipal de Saúde Pública de Florianópolis e recebem a demanda espontânea da população, além de casos referenciados por alguns serviços de saúde sem capacidade de realização dos testes. Quatro pontos de testagem se mantêm em funcionamento, apesar da queda significativa na circulação do vírus.

 

Conhecimento

A experiência acumulada permitiu que o enfrentamento da pandemia se desenvolvesse sem a necessidade de criar nichos de atendimentos especializados. “Não tem como não pensar o quanto o alicerce anterior ajudou a enfrentar esse novo paradigma, tanto a partir da APS, quanto em outros espaços como Vigilância. Tínhamos uma cultura e uma estrutura de resposta para essas novas necessidades”, analisa Filipe Perini.

Foi a partir do acúmulo de trabalho na educação permanente que as informações produzidas em protocolos chegaram mais rapidamente na ponta, sendo incorporadas ao cotidiano da atenção básica. Desde 2014, o município utilizava uma ferramenta de educação permanente desenvolvida em parceria com a Universidade do Cabo, que ajudou a assimilar de forma imediata os protocolos criados pela Vigilância e Assistência, com o objetivo de embasar as equipes e oferecer respaldo técnico e jurídico para atuarem. Os profissionais recebiam informações em dois grupos de whatsapp de apoio clínico para Covid, que funcionavam permanentemente.

A experiência na realização de testes rápidos para doenças como HIV e Sífilis também foi decisiva para o diagnóstico de Covid-19. O município foi um dos primeiros a adquirir testes, fator importante para a investigação dos surtos, como também construiu ferramentas no prontuário eletrônico para facilitar o trabalho integrado com as equipes de Vigilância. Com o apoio das universidades, a população teve acesso às informações e pôde entender decisões como a flexibilização ou não dos espaços. “Desenvolvemos com a universidade uma previsão do agora, com estimativas de casos, de mortes, de infectados, colocando de forma mais transparente os dados nas páginas da prefeitura. A integração ensino-serviço fortalece uma cultura de inovação e aprendizagem porque nada é estático e os dilemas vão continuar. A gente aprende todo dia com todo mundo”, avalia Filipe.

Desafios atuais

Hoje, a Vigilância está desenvolvendo estratégias para dar conta de um trabalho que precisou ser negligenciado em função da pandemia. Uma das iniciativas é realizar mutirões para atualizar o banco de dados de doenças como tuberculose e aids. “A gente sofreu por priorizar a Covid-19, em função do atraso e do comprometimento do cuidado de outras doenças. Não acho que poderia ser diferente, pois mesmo com a baixa letalidade, foi a Covid a doença que mais matou em Florianópolis nos últimos anos”, avalia Ana Vidor.

Numa sucessão de medidas que pedem ações urgentes, a gestão municipal enfrentou um surto de sarampo em 2019, o coronavírus a partir de 2020 e agora se volta ao enfrentamento de uma epidemia de dengue. Aqui, novamente, o conhecimento adquirido vai sendo deslocado para outras intervenções, com a utilização dos mesmos instrumentos de investigação automatizados desenvolvidos na pandemia.

“Estar na Vigilância Epidemiológica ao longo desse processo nos fez vivenciar vários sentimentos. É gratificante ver que o nosso envolvimento no desenho da macropolítica gera frutos e as decisões não ficam só no papel. Por outro lado, sentimos de uma maneira muito próxima a intervenção política, onde a dualidade discursiva gera uma disputa de narrativas, causando muita frustração em alguns momentos para quem busca se embasar cientificamente. Embora o momento seja enriquecedor, espero que a experiência seja única”, conclui a coordenadora da Vigilância Epidemiológica.

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