Especial Brasil, aqui tem SUS: Vigilância integrada à rede de atenção à saúde no enfrentamento à Covid-19 em Alhandra-PB - CONASEMS

Especial Brasil, aqui tem SUS: Vigilância integrada à rede de atenção à saúde no enfrentamento à Covid-19 em Alhandra-PB

Alhandra é um município de aproximadamente 20 mil habitantes, localizado no interior da Paraíba, conhecido pela realização semanal de uma grande feira livre, que atrai moradores de outras cidades. Como quase metade da população vive na zona rural, a feira tem um papel importante na economia local pois contribui com o escoamento da produção agrícola. Nesse contexto caracterizado pela dificuldade de restringir a circulação de pessoas, apesar da pandemia, foi identificado o primeiro caso confirmado de Covid-19 em um fiscal de tributos da feira, no dia 30 de abril.

O início da transmissão comunitária levou o município a impulsionar a reorganização da sua rede de atenção para responder ao desafio de enfrentar a Covid-19, tendo como estratégia central a integração das ações de Vigilância e Atenção Básica. Na feira livre, por exemplo, a gestão instalou pias para a lavagem das mãos e manteve equipes para dar orientações sobre os cuidados preventivos. A Atenção Básica (AB) continuou como porta de entrada do sistema e o cuidado se estendeu à atenção domiciliar de pacientes com suspeita da doença. A estratégia era manter as pessoas com qualquer sintomatologia em casa, sendo atendidas de acordo com suas peculiaridades, o que contribuiu com a contenção no avanço dos casos.

O município criou ainda um Plantão Covid para orientações telefônicas de pacientes com síndrome gripal e integrou as informações que vinham também das Unidades Básicas de Saúde (UBS) em um banco de dados unificado, onde era possível identificar todos os pacientes com sintomas da doença e traçar as estratégias de acompanhamento. “As oito UBS e o plantão notificavam e a partir daí fazíamos os testes nas residências, iniciando o tratamento padrão com kits de vitaminas e, dependendo do quadro e da avaliação clínica, com antibióticos e corticoides. Toda a nossa ideia era não retirar o paciente do isolamento ”, explica a autora da experiência, Juliane Santos da Rocha Vasconcelos.

Havia a preocupação também com os moradores da extensa área rural do município, cujo acesso é restrito pela ausência de transporte público. O cuidado se manteve através de uma unidade âncora, formada por dentista, enfermeiro, médico e técnico de enfermagem, que percorre normalmente essa região. “Quando a pandemia começou, pensamos muito nesses moradores das áreas rurais”, recorda a enfermeira Juliane. Ela é coordenadora do Programa Saúde Escola, mas assumiu a gestão da Central de Atendimento para Enfrentamento à Covid-19 junto com a coordenadora da Vigilância em Saúde, Camila Gadelha, garantindo a integração entre AB e Vigilância.

Nova fase  

A criação da Central de Atendimento para Enfrentamento à Covid-19 modificou a estratégia de cuidado no município. Os grupos de risco se mantiveram em casa recebendo atenção domiciliar, enquanto os demais usuários passaram a ser acompanhados pela Central. De acordo com a coordenadora da unidade de referência, todos os pacientes que buscaram assistência passaram por avaliação médica, o que resultou em um baixo percentual de agravamento. Segundo Juliane, a maioria das complicações pela doença e os óbitos se desenvolveram em pessoas que não procuraram pelo atendimento, embora através das redes sociais a gestão tenha difundido a importância de buscar os serviços de saúde para que nenhum sintoma fosse negligenciado.

Na Central de referência Covid, o atendimento é organizado da seguinte forma: uma enfermeira e uma fisioterapeuta fazem o telemonitoramento diário. Um médico, uma enfermeira e uma técnica de enfermagem realizam o atendimento presencial. Já a visita domiciliar é promovida por uma enfermeira, uma fisioterapeuta e uma psicóloga, garantindo também cuidado psicológico e fisioterápico para pacientes com sequelas respiratórias.

Paulo Rogério Guerra contraiu Covid-19 e contou com a ajuda das equipes de saúde do município no seu processo de recuperação, que perdurou por meses. “Fui muito bem atendido pela equipe, que me dava medicamentos na hora certa. Fui encaminhado para a fisioterapia quando tive problema no pulmão e os profissionais me ligavam a toda hora. Passei três meses afastado em tratamento e hoje, graças a Deus, estou bem. Essa doença é traiçoeira, perdi um amigo, mas hoje só tenho a agradecer a essa equipe”, reconhece o morador de Alhandra.

Segundo dados do boletim epidemiológico do dia 17 de novembro, Alhandra acumula 709 casos confirmados da doença, dos quais 679 estão recuperados e 19 foram a óbito. A rede de saúde conta ainda com um hospital, com dois médicos e dois enfermeiros, que funciona como pronto atendimento pois não há internação. Os casos graves são encaminhados para os hospitais de referência do Estado e da capital.

“Eu sou uma defensora nata do SUS, que tem sustentado o enfrentamento dessa doença traçando estratégias e criando fluxos de cuidado. Na pandemia o SUS disse a que veio, a gente percebe a sua força na iminência de um caso desses. Quanto a nós, profissionais de saúde que estamos na linha de frente, apesar do medo percebemos que somos o SUS. É uma experiência de fato que levamos para a vida: todo mundo é capaz de fazer a diferença!”, comemora Juliane.

A experiência foi apresentada durante a 6ª Roda de Conversa, confira:

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