Especial Brasil, aqui tem SUS: População LGBT recebe apoio social e psicológico durante a pandemia em Pernambuco - CONASEMS

Especial Brasil, aqui tem SUS: População LGBT recebe apoio social e psicológico durante a pandemia em Pernambuco

A Unidade de Saúde da Família Praia do Sol (USF), localizada no município de Jaboatão dos Guararapes-PE, reúne mulheres travestis e transexuais em um coletivo denominado Grupo da Diversidade, cujo objetivo é trabalhar questões relacionadas à saúde física e emocional, como também intervir sobre as iniquidades sociais.  A rotina dos encontros, que tradicionalmente acontecem uma vez por mês de forma presencial, foi interrompida pela pandemia. Em Jaboatão, como em todo país, os profissionais estão sendo desafiados a redesenhar as políticas de saúde para absorver a demanda da Covid-19, sem deixar para trás as populações mais vulneráveis e os mais dependentes de um cuidado continuado.

Foi então desenvolvido um projeto para manter os encontros, utilizando-se do Whatsapp como ferramenta tecnológica na formação de um grupo virtual. A preocupação central da equipe de saúde era estabelecer condições específicas no planejamento das ações de enfrentamento à Covid-19, que considerassem as iniquidades sociais e de saúde aos quais este grupo estava submetido. A UFS Praia do Sol localiza-se em uma região onde há muitos pontos de prostituição e talvez por isso boa parte do grupo seja profissional do sexo, o que intensifica o preconceito e o sofrimento psíquico diante da necessidade de isolamento social.

A população LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais) está submetida cotidianamente à violência e à discriminação, que se refletem na esfera da saúde. Não há, por exemplo, nos sistemas de notificação oficiais do Ministério da Saúde um campo específico que considere as especificidades de gênero, o que dificulta o mapeamento das necessidades desse público alvo. Em Jaboatão dos Guararapes, a construção de ações voltadas a prestar assistência a esses grupos na Atenção Básica (AB), a partir das pautas trazidas pelo controle social, se dá no âmbito da Coordenação Municipal de Saúde Integral da População LGBT.

As reuniões pelo Whatsapp criaram novas possibilidades de diálogo e acompanhamento em saúde do grupo, mantendo o vínculo entre usuários e equipe e fortalecendo a continuidade do cuidado. Vinte e duas pessoas fazem parte dos encontros virtuais, dentre elas 17 travestis e transexuais, um homem trans e a equipe de saúde, formada por médica, assistentes sociais, enfermeira e coordenador de saúde LGBT. A pautas das reuniões foram sendo construídas a partir das inquietações trazidas pelos integrantes frente à pandemia.

Thais Muniz, mulher trans, passou muito tempo procurando um espaço que acolhesse a população LGBT até encontrar a USF Praia do Sol. Ela conta com gratidão sobre a sua experiência no local. “Tive bom acolhimento, ajuda de ótimos profissionais de saúde, acompanhamento psicológico e consulta com a endocrinologista. Fiz exames e consegui ganhar cesta básica durante a pandemia, uma ajuda maravilhosa no momento em que estava precisando. Continuamos juntos no grupo de Whatsapp, onde nos comunicamos e ajudamos umas às outras. O que a nossa classe LGBT precisa é de união e no grupo conversamos sobre tudo, de saúde à fisionomia. Eu só tenho a agradecer”.

Foram estabelecidas estratégias de cuidado e de promoção da cidadania a partir de quatro temáticas categorizadas pelos profissionais: continuidade do uso e administração de hormônios por travestis e transexuais; garantia do auxílio emergencial pelo público LGBT; assistência à saúde mental; e vigilância de casos suspeitos e confirmados de Covid-19. A partir do entendimento de que a saúde não tem como responder a todas as necessidades sociais, a equipe buscou fortalecer ações intersetoriais com a Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, que resultou na distribuição de cestas básicas e na garantia do direito ao auxílio emergencial do governo federal.

Entre os meses de março e maio, todos os usuários tiveram pelo menos um atendimento por profissionais de saúde e as receitas médicas dos transgêneros, que realizam hormonização, foram validadas por 90 dias para evitar interrupção do tratamento. Como a maior parte do grupo é profissional do sexo, a pandemia intensificou a precarização das condições de sobrevivência, tornando fundamental a intervenção das assistentes sociais, que conseguiram a distribuição das cestas básicas e através de um processo de orientação ajudaram a garantir o auxílio emergencial para 83% dos participantes.

A preocupação diante das demandas psicológicas dos usuários motivou a realização de novas articulações, envolvendo a Coordenação Municipal de Saúde Mental e o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf). Por meio de teleatendimento psicológico, os LGBT foram acompanhados por meio de chamadas telefônicas, Skype ou Whatsapp. Mesmo vivenciando ainda o enfrentamento da pandemia, a gestão municipal criou um ambulatório LGBT como espaço de referência na atenção a esse público. A usuária Thaís Muniz está tendo acompanhamento no ambulatório no seu processo de transição de gênero.

 

Incidência de Covid-19

 

Dos 18 usuários do grupo da diversidade, dois apresentaram sintomas de Covid-19 e foram testados e orientados pela equipe de Vigilância, além de receberem material de proteção, como máscaras e álcool em gel. Alguns dos integrantes do grupo relataram a dificuldade de manter o isolamento social, interrompendo o uso do sexo como profissão. Sem qualquer atitude de julgamento, a equipe forneceu informações sobre cuidados preventivos.  “As orientações preventivas sobre Covid-19, de acordo com a política de redução de danos para esse público, possibilitou a linearidade do cuidado e a adesão ao tratamento, pois eles não eram julgados como errados. Essa experiência criou um grande canal tecnológico cidadão, que vê o usuário de uma forma integral, como um indivíduo completo”, relata a secretária municipal de saúde, Zelma de Fátima Chaves Pessôa.

Jaboatão dos Guararapes é o segundo maior município de Pernambuco, com mais de 700 mil habitantes. Como faz parte da região metropolitana de Recife, com grande trânsito de pessoas entre as cidades, é também o segundo em número de casos, com 11.300 pessoas contaminadas e 893 óbitos até o início de dezembro.

“Desafio e superação são as palavras de ordem. Os gestores tiveram que lidar com a emergência da situação, planejar essas estratégias de modo rápido, pensando não só na prevenção como na assistência em todas as complexidades. A pandemia é mais que um problema de saúde, é um problema social e econômico. Precisamos estar de mãos dadas para vencer esse momento e aprender a lidar com outros problemas, como tuberculose e sífilis. Sou militante do SUS há mais de 25 anos e vejo esse momento como uma oportunidade de aprendizado e de reafirmar a necessidade de fazer diferente”, conclui a secretária.

A experiência foi classificada como o melhor trabalho da região Nordeste, apresentado durante a I Mostra Virtual Brasil, aqui tem SUS.

Compartilhar