Especial Brasil, aqui tem SUS: acolhimento psicológico para profissionais de saúde em Viçosa – AL

O decreto governamental que estabeleceu no estado de Alagoas medidas de proteção em função da pandemia ensejou uma preocupação com os profissionais de saúde, sobretudo os que estavam na linha de frente contra a Covid-19. No município de Viçosa, a equipe de saúde mental iniciou então a formulação de um projeto voltado ao acolhimento das angústias dos trabalhadores, em especial os que estavam lotados nas Unidades de Pronto Atendimento (UPA). A psicóloga e coordenadora técnica do Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Rochelly Carnaúba Amorim, conta que a gestão acendeu um sinal de alerta ao perceber que muitos profissionais passaram a manifestar sintomas de pânico no início da pandemia.

Através de um trabalho em equipe, foi criado o Grupo de Saúde Mental do município. Na formulação do projeto, ficou estabelecida como estratégia a criação de rodas de conversa, pois a atenção individualizada já vinha sendo prestada por meio do plantão psicológico e havia a urgência de abranger um maior número de profissionais. A UPA regional foi o primeiro lugar onde as conversas se estabeleceram porque tornou-se um centro de referência, onde realizavam-se as testagens de Covid-19 e concentravam-se pacientes em estágios mais graves da doença, não só do município como de outras cidades. “Mobilizamos inicialmente os coordenadores para que eles pudessem, além de se cuidar, dar mais segurança às suas equipes. Todo nosso trabalho foi centrado na escuta. Não se tratava de dar orientação e sim ouvir para direcionar as prioridades das ações”, descreveu Rochelly, autora da experiência.

Nas rodas de conversa, os participantes vivenciavam momentos de relaxamento, onde podiam sentar no chão e compartilhar suas inseguranças. Cada roda tinha de quatro a oito profissionais de diversas áreas, como encarregados da limpeza, recepcionistas, médicos, dentre outros. Os encontros eram acompanhados por duas psicólogas, que utilizavam materiais audiovisuais para abordar as temáticas escolhidas naquele momento. Até agosto foram realizadas 17 rodas de conversa. Rochelly relata que a preocupação inicial dos usuários estava voltada à insuficiência e insegurança quanto ao uso dos equipamentos de proteção individual, como também à sensação de despreparo para lidar com a pandemia.

“A insegurança acabava trazendo um peso para esse espaço de trabalho. Chegamos a ouvir de alguns profissionais que mesmo paramentados não atenderiam pacientes com Covid-19”, lembra Rochelly. A rapidez com que o cenário se formou contribuiu com o desenvolvimento de uma sintomatologia ansiosa nos profissionais de saúde.  “No início, o novo assustou a todos. Diante das inúmeras mortes, vivíamos angústia e incerteza. Era necessário dar apoio às famílias enlutadas e à nossa própria família. O amparo psicológico que tivemos foi de fundamental importância e trouxe mudança na minha percepção de ver as coisas, no atendimento aos usuários e no meu bem estar. Precisávamos, enquanto categoria do serviço social, daquele momento para nos mantermos fortes e enfrentar tudo que veio”, relatou Lidiane Moraes, assistente social da UPA.

O projeto foi reconhecido pela qualidade do cuidado aos profissionais de saúde, o que lhe rendeu a premiação de primeiro lugar na fase inicial da I Mostra Virtual do Cosems Alagoas. Foi também escolhido como o trabalho de maior destaque do Estado, na I Mostra Virtual Brasil, aqui tem SUS, promovida pelo Conasems durante o congresso virtual da entidade. “No início dessa pandemia da Covid-19, estávamos muito confusos e um pouco atormentados em relação a como seria a nossa vida profissional dali por diante. Mas nos sentimos acolhidos e pudemos nos expressar de forma tranquila e saudável sobre os medos, receios, o que foi muito importante para mim e todos os meus colegas. É bom saber que o município se preocupou com nossa saúde mental nesse momento e as meninas desenvolveram o trabalho de forma muito eficiente e sensível”, afirmou Valkíria Pedrosa, enfermeira da Unidade Básica de Saúde José Maria de Melo.

Com o tempo, a experiência foi se adaptando às mudanças no ciclo da pandemia. As questões que mobilizavam os trabalhadores foram se modificando como também as rodas de conversa se ampliaram, abrangendo os profissionais que atuam das unidades básicas de saúde, na vigilância sanitária, no hospital e entre os agentes comunitários de saúde. Hoje as psicólogas continuam disponíveis para atender as demandas das equipes e mantêm o cuidado individual por meio do plantão psicológico.

A experiência foi apresentada durante a 2ª Roda de Conversa da I Mostra Virtual Brasil, aqui tem SUS. Confira a transmissão ao vivo no vídeo abaixo:

 

Texto: Giovana de Paula, colaboradora externa

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