Especial Brasil, aqui tem SUS: Barbacena-MG desenvolve instrutivo com detalhamento sobre o acolhimento de sepultadores na pandemia - CONASEMS

Especial Brasil, aqui tem SUS: Barbacena-MG desenvolve instrutivo com detalhamento sobre o acolhimento de sepultadores na pandemia

Uma experiência desenvolvida em Barbacena, município de 140 mil habitantes localizado na Zona da Mata de Minas Gerais, traz um olhar atento sobre profissionais historicamente invisibilizados. Tudo começou quando uma equipe do Centro de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) se debruçou sobre os instrutivos do Governo Federal e Estadual e do Ministério do Trabalho para orientar as categorias profissionais sobre como lidar com a pandemia que acabava de se instaurar no Brasil. Partia-se da ideia de que seria de pouca valia o acúmulo de documentos, se as informações não chegassem aos trabalhadores sujeitos ao processo de adoecimento.

A equipe do Cerest passou a visitar diversas categorias, como profissionais de saúde e trabalhadores rurais, e nesse percurso se deparou com a gestão dos corpos vitimados pela Covid-19 ou pela Síndrome Respiratória Aguda. Os profissionais perceberam que todas as informações disponíveis esbarravam na porta dos hospitais. Não havia nada que respondesse a questões do tipo: Quem vai buscar o corpo? Como vai proceder o sepultamento? Nas visitas a equipe identificou, consequentemente, o desgaste emocional vivido pelos sepultadores. Eles estavam submetidos a uma série de mudanças de regramento, ao medo de contaminação e a situações que exigiam muito controle emocional. Não era fácil fechar o caixão de um filho cuja mãe não pôde estar presente porque fazia parte do grupo de risco.

Os profissionais pesquisaram em toda a literatura disponível no país sobre quais ações eram importantes para proteger os sepultadores, que lidavam diretamente com os corpos das vítimas de Covid-19. Diante da ausência de informações, eles prepararam um instrutivo contendo orientações acerca do tipo de Equipamento de Proteção Individual (EPI) adequado para aquela função; a higienização correta das mãos e o uso de álcool em gel; o processo de lavagem das roupas e quais vestimentas são indicadas ao trabalho; dentre outros. Mesmo diante da insistência das famílias, eles foram orientados a não abrirem as urnas e a se manterem atentos ao uso dos acessórios de segurança.

Barbacena tem três cemitérios, dois deles administrados pelo município e um da iniciativa privada. Os profissionais do Cerest estiveram presentes prestando orientações em todos eles e nas funerárias da cidade. São 20 sepultadores nos cemitérios municipais e aproximadamente a mesma quantidade no cemitério particular. Além do papel educativo, o Cerest também se engajou na luta pela distribuição de EPIs para essa categoria junto aos órgãos competentes da Prefeitura.

“O SUS (Sistema Único de Saúde) é o único que olha a todos indiscriminadamente, inclusive o trabalhador que não tem vínculo formal. Imagine a situação de um pai de família que perdeu o emprego em função da Covid-19? O SUS acolhe os desempregados. A gente vê a importância da universalidade no enfrentamento a essa pandemia: o tratamento é por conta do SUS; a gestão do ambiente hospitalar é por conta do SUS. Caso ele não existisse, seria um caos como em outros países. O SUS faz até a gestão do contágio da doença”, reconhece Lena Márcia Pacheco, farmacêutica e analista administrativo do Cerest.

Vínculo afetivo

A enfermeira e chefe do setor Cerest de Barbacena, Andréa Cristina de Souza e Silva, conta que durante as visitas foi possível perceber que os sepultadores não tinham a sensibilização sobre a importância do uso dos equipamentos de proteção. A equipe trabalhou a noção de risco junto a eles, momento em que as atividades educativas se configuraram em um processo de troca de saberes. No material instrutivo, além de serem abordadas informações sobre a doença, prevenção de contaminação e o uso de EPIs individual e coletiva, os profissionais também deram atenção especial ao tema saúde mental.

Hoje a gente tem junto aos sepultadores um vínculo emocional muito forte. Até em casos de adoecimento familiar eles procuram a nossa equipe como porta de entrada do sistema. É muito legal ver a mudança emocional deles, perceber que conseguiram visualizar a importância do trabalho que realizam. Eles tinham receio até de se pronunciar como sepultadores”, afirma Lena Pacheco.

Barbacena teve 1.300 casos confirmados de Covid-19 e 26 óbitos. Nenhum sepultador foi contaminado. “Enfrentamos vários desafios, a demanda é muito grande e nosso trabalho silencioso. Vimos muita coisa acontecer e precisávamos lutar pela saúde do trabalhador. Foram muitos profissionais com transtorno mental relacionado à pandemia e à sobrecarga nas suas funções. Continua sendo um desafio bem estressante, mas o papel do SUS é muito importante porque os trabalhadores precisam dele”, conclui Andréa Cristina.

A experiência foi selecionada como a melhor da região Sudeste durante a I Mostra Brasil, aqui tem SUS.

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