Especial Brasil, aqui tem SUS: arteterapia domiciliar no cuidado de pacientes psiquiátricos em Altos - PI - CONASEMS

Especial Brasil, aqui tem SUS: arteterapia domiciliar no cuidado de pacientes psiquiátricos em Altos – PI

Altos é um município do Piauí de aproximadamente 39 mil habitantes, distante apenas 40 km de Teresina. Considerada uma cidade dormitório, em função do deslocamento diário de boa parte dos moradores para trabalhar na capital, o município é referência na região no tratamento de transtornos psiquiátricos, atendendo inclusive pacientes de outras localidades. Como em todo país, a pandemia provocada pela Covid-19 impôs restrições ao trabalho terapêutico desenvolvido no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), o que levou à criação de um projeto que conseguiu descentralizar as ações e envolver as famílias no cuidado.

Maria Beatriz Costa Dias, assistentes social e coordenadora do CAPS, conta que o artesanato sempre foi uma atividade central no processo de tratamento dos usuários. Eles desenvolvem pintura em cerâmica, tecidos e telhas, confeccionam bonecas de pano e utilizam-se de reciclagem de material. Em parceria com o polo de cerâmica de Teresina, recebem peças com defeito que não serão comercializadas e as duas artesãs do CAPS concertam os utensílios, que servem de matéria prima para o trabalho terapêutico. No entanto, a necessidade de manter o isolamento social interrompeu esse processo que se dava de forma coletiva e compartilhada.

Cuidado domiciliar

A pergunta sobre como dar continuidade a essas atividades sem expor os usuários deu origem a uma proposição de trabalho a ser desenvolvido em casa, com o acompanhamento das famílias. Uma equipe do CAPS, formada por uma enfermeira, uma artesã e a assistente social, saiu em campo carregando tintas, pincéis e camisetas e de porta em porta distribuiu os materiais entre os 20 pacientes que recebem acompanhamento intensivo na unidade de saúde.

Desafiados a reiniciar o processo terapêutico a partir de um outro contexto, os usuários surpreenderam os profissionais pelo envolvimento com a tarefa. A cada dois dias a equipe volta a campo para receber as camisetas devidamente pintadas e avaliar a efetividade da iniciativa. “Eu acho que a gente fortaleceu a reforma psiquiátrica porque mudamos nosso atendimento, que era muito centralizado, e trouxemos as famílias para o projeto. Não sabíamos o quanto éramos importantes na vida deles até a pandemia acontecer. O fundamental é que eles não se viram abandonados, porque a equipe fez tudo para ficar por perto”, comemora Beatriz.

Profissional da equipe do CAPS em visita domiciliar

 

A ideia de levar o cuidado para dentro das residências se estendeu ao acompanhamento e controle do uso das medicações, além da psicoterapia. Há usuários que fazem uso de até sete medicamentos e por isso precisam de atenção permanente. Pacientes em tratamento também têm acesso a um número telefônico em que podem falar com os profissionais quando considerarem necessário. “Eu nunca tinha pintado uma camisa assim. Achei que seria mais difícil, mas é fácil”, constata Francisco, usuário do CAPS que entrou no projeto com a ajuda da mãe. Ao lado do filho, ela conta que a espera agora é pelo retorno das profissionais para adquirir mais material.

Retomada

No CAPS recebem tratamento usuários com depressão, esquizofrenia, retardo e transtorno neurológico, que são acompanhados por uma equipe formada por 17 profissionais: psicólogas, assistente social, enfermeiras, educadora física e acupunturista, auxiliar de farmácia, farmacêutico e artesãs. O projeto foi finalizado, mas a equipe desenha um cronograma de retorno gradativo ao atendimento presencial. O objetivo é organizar os horários de cuidado e dar continuidade à readequação do trabalho nas residências, utilizando-se de práticas integrativas e complementares.

Usuário fazendo arteterapia em domicílio

Segundo Beatriz, nenhum paciente entrou em crise ou apresentou sintomas respiratórios que caracterizem a contaminação por Covid-19. Até o dia 5 de outubro, foram confirmados no município 3.324 casos da doença, dos quais 1.341 curados e 25 óbitos.

A experiência foi apresentada na quarta Roda de Conversa do Conasems, durante a I Mostra Virtual Brasil, aqui tem SUS, representando o estado do PI. Confira a transmissão ao vivo:

 

Texto: Giovana de Paula, colaboradora externa do Conasems

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