Especial Brasil, aqui tem SUS: A experiência do uso das PICs no cuidado ao profissional de saúde em Icapuí-CE - CONASEMS

Especial Brasil, aqui tem SUS: A experiência do uso das PICs no cuidado ao profissional de saúde em Icapuí-CE

Icapuí é um município litorâneo, situado na região oriental do Estado do Ceará e conhecido pelas belezas naturais. Durante a pandemia, uma experiência voltada ao cuidado do trabalhador da saúde procurou possibilitar, em um só tempo, apoio psicológico e reflexão sobre a condição do profissional de saúde, representado pela figura do herói que se expõe ao sacrifício. O que se buscou foi acender um alerta em torno da manipulação da subjetividade do profissional de saúde, que é convocado a aceitar o sacrifício para aliviar o sofrimento do outro, e deixa de olhar para si mesmo. Cuidar de si é fundamental para cuidar do outro.

O trabalho foi desenvolvido por seis profissionais das áreas de fisioterapia, nutrição e serviço social, que fazem parte da Residência Integrada em Saúde da Escola de Saúde Pública do Ceará. Elas atuam junto às equipes do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf) de Icapuí, que tiveram suas atividades reduzidas no início da pandemia em função da necessidade do isolamento social. Diante da dúvida sobre o que fazer para ajudar os profissionais que assumiram a linha de frente contra a doença, resolveram desenvolver Práticas Integrativas e Complementares (PICS) fazendo uso das próprias habilidades pessoais e, assim, potencializando o cuidado não medicamentoso para enfrentar sintomas de ansiedade, depressão, insônia, medo, tão comuns nesse período.

“Foi um momento muito conturbado para todo mundo. Quando entramos na residência, não imaginávamos passar por isso, mas foi de muito aprendizado. Desde que o SUS nasceu estamos sofrendo retrocessos e vê essa experiência acontecendo na prática e beneficiando tantas pessoas, nos faz sentir orgulho”, afirmou a autora da experiência, Sarah Anne Silveira Sampaio. O município, de aproximadamente 20 ml habitantes, tem três equipes do Nasf, das quais duas contam com a presença dos residentes.

O engajamento das residentes com formação em PICS que se dispuseram a realizar o cuidado disparou a proposta de formação do grupo.  Duas profissionais começaram então a realizar a ventosaterapia, outras duas a auriculoterapia e a quinta aplicava a massoterapia. Inicialmente, o trabalho foi voltado para os profissionais lotados nos hospitais, na Secretaria de Saúde – envolvidos com a elaboração dos boletins epidemiológicos e das barreiras sanitárias – e no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Icapuí.

Iniciadas em maio, as práticas são realizadas duas vezes por semana, no auditório da Secretaria de Saúde. O interesse dos profissionais pelas PICS fez com que o projeto permanecesse, mas com público alvo flutuante. Sarah, residente responsável pelo agendamento dos atendimentos, disse que ao divulgarem o serviço a procura foi imensa, o que gerou a necessidade de organizar um cronograma que contemplasse todos. Em um segundo momento, quando perceberam que a demanda dos equipamentos prioritários foram diminuindo, a ação passou a contemplar também os profissionais da Atenção Básica. Até outubro, haviam sido realizados 79 atendimentos, beneficiando 39 pessoas em 4 meses.

“Nós, profissionais de saúde, estávamos trocando o pneu do carro em movimento, ou seja, aprendendo a lidar com essa situação do ponto de vista profissional e pessoal. Foi uma situação que afetou emocionalmente de maneira muito forte aqueles que não se isolaram socialmente, que continuaram trabalhando, fazendo o sistema de saúde funcionar para cuidar das outras pessoas. Isso tudo foi gerador de muito adoecimento, insegurança e ansiedade. Eu tenho transtorno de ansiedade generalizada, que se acentuou de maneira muito forte na pandemia. O espaço das PICS, de muito cuidado, de cura, foi me fortalecendo para enfrentar esse momento. Eu ficava sempre esperando chegar a hora porque saia muito leve, relaxada, e isso energizava a gente para continuar na ativa”, afirma Raylka Franklin, assistente social e coordenadora do Sistema Saúde Escola.

O papel das PICS

As Práticas Integrativas e Complementares já eram desenvolvidas no município em ações com a comunidade, envolvendo a Atenção Primária. Esse trabalho ganhou escala no país, dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), a partir da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares do SUS, instituída em 2006 com o objetivo de disseminar um cuidado alternativo de baixo custo, grande efetividade e pouco invasivo.

“Temos a consciência do que as PICS representam para a qualidade do cuidado. Sou uma grande defensora dessas práticas. Foi um momento de muito aprendizado ao ver que esse trabalho funciona e que foge do modelo biomédico. Defendo com unhas e dentes e quem puder levar para o seu município, só tem a ganhar”, enfatiza Sarah.

Até o dia 5 de outubro, foram notificados 1.284 casos de Covid-19 no município, sendo 554 confirmados. Desse total, 491 estavam curados e 50 em isolamento domiciliar. Foram 12 óbitos em consequência da doença. Icapuí tem um hospital de atenção secundária, que faz a estabilização dos casos ou a referência para os municípios de Aracati e Fortaleza, além de um Centro de Atendimento exclusivo para Covid 19, oito unidades de Atenção Primária e nove equipes da Estratégia Saúde da Família.

A experiência representou o estado do Ceará na quinta Roda de Conversa da I Mostra Virtual Brasil, aqui tem SUS e foi apresentada na 5ª Roda de Conversa. Confira o vídeo na íntegra:

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