Descentralização da saúde mental amplia atendimento psicológico em Tucuruí - PA - CONASEMS

Descentralização da saúde mental amplia atendimento psicológico em Tucuruí – PA

Muitos municípios brasileiros estão suplantando a ideia de que a saúde mental deve ser tratada apenas em espaços de atenção especializada. Lugar de paciente com transtornos psicológicos é também nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAS) e nos hospitais gerais. Nesse sentido, a gestão municipal de Tucuruí, município localizado no interior do Pará, iniciou a reformulação da sua rede de saúde mental no contexto da pandemia, como resposta ao aumento da demanda e o desejo de romper com o isolamento do cuidado desses pacientes.

Das 19 unidades básicas de saúde do município, apenas duas possuíam psicólogos entre suas equipes, o que levava os usuários a procurarem cuidado diretamente no único Centro de Atenção Psicossocial (CAPS 2) do município ou no Centro Municipal de Atendimento à Pessoa com Autismo (CEMAPA). Para descentralizar a oferta de serviços, o primeiro passo foi realizar a busca ativa dos psicólogos da rede municipal de saúde com o intuito de remanejá-los para as UBS. Um levantamento feito na Atenção Básica identificou dez unidades mais vulneráveis, que passaram a contar com a presença desses profissionais pelo menos uma vez por semana. Como se percebe, a ampliação do atendimento em Tucuruí vem se dando através da utilização da própria rede de profissionais, sem novas contratações.

“Estamos buscando tornar a saúde mental mais efetiva em toda rede. Só o fato de o usuário encontrar nas unidades esse suporte, os deixou mais satisfeitos”, afirma a coordenadora municipal de saúde mental e psicóloga, Elayne Santos Silva. Através de um processo de matriciamento, os profissionais de qualquer nível de atenção à saúde tornaram-se mais habilitados a olhar o paciente com transtorno psicológico de acordo com suas especificidades. O investimento na qualificação das equipes se deu, inclusive, com a presença dos psicólogos do CAPS dentro das unidades básicas de saúde, onde dedicam um dia de trabalho, fortalecendo a inclusão da saúde mental nos serviços da Atenção Básica.

Atividade coletiva em alusão ao Setembro Amarelo em ginásio de Tucuruí 

 

Saúde mental e Covid-19

Tucuruí tem aproximadamente 100 mil habitantes e absorve demandas de saúde de cidades vizinhas. A disseminação do coronavírus teve impacto direto na saúde mental da população. Com a reformulação da rede, o fluxo de atendimento passou a se organizar da seguinte forma: o primeiro lugar de cuidado de transtornos psíquicos é a unidade básica de saúde, onde permanecem os casos menos graves em acompanhamento clínico e psicológico. O CAPS, embora esteja aberto à procura direta do usuário, é estruturado para receber pacientes com sintomas mais complexos, que passam por atendimento de enfermagem, serviço social, psicologia e, se necessário, psiquiatria. Eles também são encaminhados para os grupos e oficinas de relaxamento, respiração, atividades físicas e manuais.

As pessoas em crise ou que necessitam de internação imediata são direcionadas para as Unidades de Pronto Atendimento (UPAS) ou para o hospital regional, onde há oito leitos de internação. “A quarta onda de Covid é a doença mental! As pessoas não podem ter vergonha de buscar ajuda em qualquer ponto da rede e, por isso, precisamos fortalecer esse cuidado e contribuir com a quebra do preconceito”, enfatiza a coordenadora.

Crianças e adolescentes

A gestão municipal de saúde de Tucuruí elegeu como tema da campanha nacional de prevenção ao suicídio, denominada Setembro Amarelo, o fim da cultura do cancelamento. Uma grande mobilização, através de rodas de conversa, simpósio e terapia comunitária, buscou debater entre a comunidade questões como a falta de empatia e o bulling escolar.  A temática dialoga diretamente com as necessidades dos jovens, afetados intensamente pela pandemia.

O município registra quadros crescentes de estudantes com problemas como síndrome do pânico, dificuldade de adaptação, déficit de atenção, procrastinação, ansiedade e depressão.  “Acabei de atender um adolescente com indícios de automutilação. É uma questão séria, muito frequente, que precisamos cuidar. Seguimos aqui lutando com eles”, conta a psicóloga Maria de Lourdes Lúcio Aragão. Ela divide sua carga horário entre as unidades de saúde na Santa Isabel e na Cohab.

Conversa sobre saúde mental na sala de espera de UBS

 

O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é o problema mais comum observado entre crianças nas unidades onde Maria de Lourdes atua. Através de uma articulação com o setor de telemedicina, ela conseguiu garantir o encaminhamento direto dessas crianças ao neurologista, quando se faz necessário. Já entre os adolescentes, tem sido muito recorrente a apresentação de sintomas de depressão e ansiedade, agravados pela automutilação e tentativa de suicídio.

Os casos mais graves, que necessitam de intervenção psiquiátrica, são encaminhados para o Centro de Especialidades de Tucuruí, que recebe jovens de até 16 anos. O trabalho envolve um esforço intersetorial, buscando, por exemplo, garantir às crianças em situação de vulnerabilidade social o cuidado no Centro de Referência em Assistência Social (CRAS). A psiquiatra Lenise Cristina Barros, que trabalha nos municípios de Tucuruí e Breu Branco, acompanha crianças e adolescentes no Centro de Especialidades. Ela confirma o aumento da demanda de atendimento de crianças com problemas ligados ao desenvolvimento, como autismo, TDAH e retardo mental, além de adolescentes com quadros de ansiedade e depressão.

A demanda infanto-juvenil passou, com a reorganização dos serviços, a ser atendida também na rede básica de saúde. Mesmo que o público nessa faixa etária necessite de atenção especializada, ele segue sendo acompanhado pelo profissional da UBS. Isso garante a integralidade do cuidado e a manutenção do vínculo no território. “O acompanhamento psicológico de crianças nas unidades de saúde melhorou bastante, mas ainda há dificuldades em função da ausência de estrutura adequada para contemplar esse público”, afirma a psiquiatra Lenise. No CAPS de Tucuruí, onde atende pacientes acima de 16 anos, a psiquiatra diz que seu trabalho é facilitado pela atuação multiprofissional. A expectativa dos profissionais que atuam com saúde mental é a instalação do CAPS Infantil, um projeto em andamento.

A experiência de Tucuruí mostra o quanto o aumento dos distúrbios psicológicos na pandemia tem exigido dos profissionais de saúde um comprometimento intensivo. “Eu, que devo me aposentar no próximo ano, acho assustador o crescimento de casos de transtornos psicológicos em todas as faixas etárias. A população não está conseguindo lidar bem com essa realidade, marcada por muitas perdas. A maior demanda é lutar para que as pessoas queiram se manter vivas”, conclui a psicóloga de Tucuruí Maria de Lourdes.

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