Como a capacitação de profissionais da Atenção Básica está ampliando o cuidado em saúde mental na capital do Amazonas? - CONASEMS

Como a capacitação de profissionais da Atenção Básica está ampliando o cuidado em saúde mental na capital do Amazonas?

Com o aumento da demanda de saúde mental em decorrência da pandemia, Manaus-AM investiu na capacitação de médicos e profissionais da AB para diagnosticar transtornos psicológicos

O município de Manaus, capital do Amazonas, cuja população supera dois milhões de habitantes, tem na sua rede de saúde mental apenas quatro Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ligados à gestão municipal e um ligado à gestão estadual. Considerando o contingente populacional do município e o aumento da demanda de saúde mental em decorrência da pandemia de Covid-19, era necessário ampliar a capacidade da rede pública para atender usuários com transtornos psicológicos. O caminho encontrado pela Secretaria Municipal de Saúde foi qualificar os médicos das Unidades Básicas de Saúde (UBS), através de um curso de capacitação, para diagnosticar e tratar pessoas com sintomas leves.

O raciocínio da gestão segue a lógica estabelecida no próprio desenho organizativo do SUS: se a Atenção Básica é a porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), por que seria diferente quando o assunto é saúde mental? No entanto, o que parece evidente esbarra em algumas dificuldades como o contexto de formação dos médicos das UBS, pouco preparados para lidar com questões psíquicas. “Tivemos que buscar estratégias para atender a grande demanda de saúde mental e para lidar com a dificuldade dos profissionais de saúde da Atenção Primária em Saúde (APS) de atender esse perfil de usuário. Por isso iniciamos, em 2019, a primeira capacitação desses profissionais em psiquiatria”, explica a gerente da Rede de Atenção Psicossocial do município, Efthimia Simões Haidos.

Foram ofertadas 200 vagas, o que resultou na formação de 119 médicos das UBS que concluíram o curso, cuja duração foi de sete meses. O programa de aulas envolveu um amplo espectro de questões relacionadas à psiquiatria, inclusive diagnóstico, prescrição de medicação, dentre outros. A segunda turma do curso de capacitação na APS foi iniciada no final de 2021 com a ampliação do número de vagas e do tempo de duração, que passou de sete para oito meses.  “Começamos desde então a perceber uma mudança na APS. Tínhamos muitos pacientes que já estavam há bastante tempo no CAPS e podiam retornar para o seu território, abrindo espaço para pessoas com sintomas graves”, comemora a coordenadora.

Antes da iniciativa, os usuários esperavam, para uma primeira consulta no CAPS, entre cinco e seis meses e o retorno só acontecia após cerca de quatro meses. Atualmente, segundo a coordenadora, é possível conseguir, em muitas ocasiões, uma primeira consulta em até sete dias. O retorno continua sendo o desafio maior, porque ainda pode demorar até três meses. Nesses casos, a orientação é manter a prescrição dos medicamentos pelo tempo de espera e, caso se identifique intercorrências, falar com o terapeuta de referência para aquele paciente.

A médica de família e comunidade, Cláudia Almeida de Araújo Siqueira, trabalha na Estratégia Saúde da Família (ESF) há 22 anos. Atualmente, ela acompanha os pacientes da UBS O19, no Bairro Compensa 2, localizado no Distrito de Saúde Oeste. Como a região é pobre e ainda não há um CAPS, os usuários têm dificuldade de se deslocar para outros bairros, fator que reafirma a importância de qualificar os profissionais de saúde na APS.

A experiência de Cláudia com saúde mental se iniciou no setor de urgência do Centro Psiquiátrico Eduardo Ribeiro, ligado ao Estado, onde trabalhou por três anos. O conhecimento adquirido na prática se somou ao aprendizado no curso de capacitação oferecido pelo município. “O Centro Psiquiátrico foi uma escola e a capacitação em psiquiatria contribuiu para que eu me sentisse mais segura para manter o acompanhamento dos pacientes”, diz. Ela atende usuários com toque, esquizofrenia, ansiedade, pânico, dentre outros sintomas.

A rotina de atendimento dos pacientes com transtornos psicológicos na UBS onde Cláudia atua se dá da seguinte forma: o primeiro passo é afastar qualquer causa orgânica, como problemas metabólicos, através do agendamento de exames na própria unidade. Uma vez feito o diagnóstico, ela inicia a medicação e quando há necessidade de acompanhamento psicoterapêutico, o paciente é encaminhado para uma das sete policlínicas da cidade, onde há psicólogos atuando na rede. O usuário volta regularmente para ajustar a medicação. “Na medicina de família, a gente trabalha muito com adesão, para que o usuário se sinta à vontade para falar e esclarecer os pros e contras do uso do medicamento e a importância da psicoterapia. Meu sonho é realizar atendimento em grupo, mas não temos tempo nem espaço”, avalia.

Usuários

A transição dos pacientes dos CAPS para unidades de referência no seu território passa também pelo apoio às famílias, para que se sintam seguras da mudança. Johanan de Paula, aposentado, há muito tempo acompanha o tratamento de seus dois filhos no Sistema Único de Saúde (SUS). O mais velho foi diagnosticado com esquizofrenia e o mais novo com Síndrome do Espectro do Autismo. Por algum tempo, ele recorreu ao sistema privado e à saúde suplementar, mas o aumento das despesas o fez prosseguir no SUS, onde por muitos anos os meninos se mantiveram ligados ao CAPS Sul.

Ele conta que teve dificuldade em aceitar a descentralização do atendimento, com o encaminhamento de seus filhos à unidade do território. Era necessário, para Johanan, mais estrutura capaz de responder às necessidades psíquicas dos filhos, que estão estabilizados através do uso de medicação contínua. Os rapazes, que nasceram no final da década de 80, foram então encaminhados para a policlínica, onde há atendimento psicológico. “Na vida real eu aprendi a reagir. O mais velho tinha asma e as vezes a gente passava cinco dias na internação. Minha luta nessa vida todinha é deixar meus filhos cada vez mais independentes”, relata o pai.

Além da capacitação, outra iniciativa tem possibilitado uma transição mais confortável para familiares e profissionais: é o matriciamento, que oferece suporte técnico-pedagógico aos médicos da APS. “A gente matricia todas as zonas da cidade, o que possibilita que o CAPS esteja em qualquer unidade que solicite o suporte. Fazemos também o acompanhamento responsável do usuário que estava no CAPS e voltou para a unidade de seu território, sobretudo em casos mais complexos, quando a equipe está insegura”, explica a gerente de Saúde Mental.

De acordo com dados da coordenação de saúde mental do município, houve um aumento de cerca de 30% na procura por atendimento em função da pandemia, sobretudo por problemas relacionados a transtorno de ansiedade. A sobrecarga também afetou os profissionais de saúde. Além de Covid-19, a médica Cláudia desenvolveu fobia. “O medo deve ser controlável, porque embora tenhamos que redobrar os cuidados, não podemos fugir de algo que fomos vocacionados para enfrentar”, relata. Sua equipe, composta por 12 profissionais, criou um grupo de autogestão para compartilhar não só problemas administrativos e de trabalho, mas sobretudo “ouvir o coração uns dos outros”.

A Secretaria Municipal de Saúde programou a construção de sete CAPS até 2027. A previsão é de que dois deles – uma CAPS AD e outro tipo 2 – fiquem prontos ainda esse ano.

Compartilhar