Belo Horizonte-MG adotou um novo modelo de integração entre AB-VS durante a pandemia - CONASEMS
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Brasil aqui tem SUS | 27/05/2022

Belo Horizonte-MG adotou um novo modelo de integração entre AB-VS durante a pandemia

Os gestores públicos se viram diante de um duplo desafio: adaptar a estrutura do SUS para responder às necessidades emergentes em relação à Covid-19 e ao mesmo tempo manter a continuidade das ações de cuidado da população

Quando os primeiros casos de Covid-19 se manifestaram no Brasil em março de 2020, indicando que a pandemia havia chegado, os gestores públicos se viram diante de um duplo desafio: adaptar a estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) para responder às necessidades emergentes e ao mesmo tempo manter a continuidade das ações de cuidado da população. Belo Horizonte, capital do estado de Minas Gerais, tomou a decisão de sustentar as ações preventivas de inúmeros agravos, o que se refletiu em indicadores favoráveis quando comparados a outras regiões do país.

Tomemos o exemplo das arboviroses causadas pelo vetor Aedes aegypti. Hoje, boa parte dos municípios brasileiros estão enfrentando um crescimento vertiginoso no número de casos de Dengue, Chikungunya e Zika e uma das hipóteses possíveis para essa intensificação é a redução do trabalho de controle de zoonoses no contexto pandêmico, muitas vezes inevitável. No entanto, na capital mineira, os números dão conta de outra realidade.

“A cidade não ficou desguarnecida do combate ao Aedes. Não tivemos epidemia por Chikungunya até hoje e nossos indicadores são, de alguma forma, resultado do exercício da ação integrada da Vigilância. Para evitar a fragmentação das ações que devem ser integradas, no contexto da pandemia também promovemos uma maior sinergia entre Vigilância Sanitária, Vigilância Epidemiológica de doenças transmissíveis e de doenças não transmissíveis, Gerência de zoonoses, saúde do trabalhador, dentre outros”, avalia o subsecretário de Promoção e Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, Fabiano Geraldo Pimenta Júnior.

Além de não paralisarem suas atividades, os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e Agentes de Combate as Endemias (ACE) tiveram um papel estratégico no enfrentamento ao coronavírus. Eles levaram esclarecimentos à população e foram elo entre as unidades de saúde e as comunidades, sobretudo aquelas com maiores índices de vulnerabilidade em saúde. Por meio de uma ação integrada entre Vigilância em Saúde e Atenção Básica, esses profissionais tiveram um papel importante na orientação de sintomas, estímulo às notificações, busca ativa em áreas de alta vulnerabilidade social, disseminação de informações sobre medidas preventivas e distribuição de máscaras de proteção e seu uso correto. “Eu considero esse trabalho muito importante do ponto de vista de proteção da população”, enfatiza Fabiano Pimenta.

A gestão de Belo Horizonte se organiza de forma descentralizada em 9 Regionais Administrativas, onde estão distribuídos 152 centros de saúde da rede SUS. A Regional Nordeste, uma das maiores do município, é marcada por uma extensão territorial de perímetro longitudinal, e por isso abrange bairros bem diversificados do ponto de vista geográfico e socioeconômico. “A gente tem bairros onde a população vive em condições melhores, outros com áreas de alta vulnerabilidade social, bairros de invasão, como também muita área verde em bairros que ainda apresentam características semelhantes a zonas rurais”, descreve a gerente de Zoonoses da Regional Nordeste, Fabiane das Graças Caldeira Brant.

Com a pandemia, os agentes passaram a seguir um protocolo de segurança para dar prosseguimento ao trabalho e contribuir com o enfrentamento do coronavírus. As vistorias rotineiras foram realizadas mantendo o distanciamento entre profissionais e moradores e os agentes não entravam nas residências onde havia pessoas dos grupos de risco. A maior parte das ações de controle passou a ser realizada no peridomicílio. “Nosso trabalho não deixou de ser feito e foi muito importante manter o contato com os moradores, porque fez com que se sentissem acolhidos. Conversávamos de fora da casa, tirando dúvidas, em um movimento que nos possibilitou conservar essa relação”, comemora Fabiane Brant.

No início da pandemia, boa parte da população teve medo de se dirigir às unidades de saúde e se contaminar, o que tornou a presença desses profissionais ainda mais relevante, inclusive ajudando a distribuir máscaras em zonas mais vulneráveis. Em um processo de mão dupla, eles se tornaram fonte de informação importante nas próprias unidades de saúde, levando dados sobre casos suspeitos, ajudando a localizar residências em bairros pouco sinalizados e contribuindo com a busca ativa de não vacinados.

A Regional Nordeste de Belo Horizonte tem 21 centros de saúde e em cada um deles há uma equipe de zoonoses, onde atuam de 9 a 4 profissionais, dependendo do número de imóveis. Wanderley Domingos da Silva, supervisor operacional de campo da Zoonoses, faz parte de uma equipe onde seis agentes se dividem para que cada um garanta a cobertura de mil imóveis. A cada 45 dias, os residentes recebem a visita desses profissionais para vistoriar as casas e protegê-las da atuação de mosquitos transmissores de doenças, roedores, animais peçonhentos, dentre outros.

Wanderley conta que no começo da pandemia o trabalho foi muito comprometido porque agentes e moradores estavam com medo do contato mútuo, mas para aumentar a margem de segurança eles atuaram dentro dos parâmetros estabelecidos nas normas técnicas da Secretaria de Saúde. “É uma bagagem a mais que ganhamos, porque temos que estar preparados para tudo. Precisamos aceitar também as coisas ruins, porque vão aparecer muitas novas doenças”, reflete.

Sistema de informação

Para conter as arboviroses, as equipes de controle de zoonoses têm tido uma atuação intensiva, com base em um histórico de acúmulo de dados e informações que permite avaliar as regiões de acordo com o número de casos. São realizados mutirões de limpeza, avaliação ambiental, identificação das áreas onde surgem possíveis contaminações, etc. No caso da Chikungunya, por exemplo, quando a Vigilância recebe uma notificação, antes mesmo de ser confirmada, a equipe já atua dentro do perímetro de transmissão do vetor para impedir a reprodução. “A gente conseguiu manter um trabalho fiel dentro do que poderíamos fazer. Os nossos dados estão bem abaixo do que teoricamente seria um ano epidêmico, menor do que em fases pré-epidêmicas”, comemora a gerente de Zoonoses da Regional Nordeste.

A utilização dos dados também foi crucial no enfrentamento do coronavírus. Desde o surto de H1N1 ocorrido em Belo Horizonte, nos anos de 2009 e 2010, o município passou a atualizar anualmente o plano de contingência para enfrentamento das síndromes respiratórias, que contempla aspectos de Vigilância e Assistência. “Ganhamos experiência e com esse plano passamos a orientar, por meio de notas técnicas sistemáticas, todo sistema de saúde de BH, com adaptações à realidade epidemiológica da Covid-19 naquele momento. Atualizamos a definição de casos suspeitos e confirmados e realizamos o georreferenciamento para orientar o trabalho dos profissionais de saúde”, afirma Fabiano Pimenta.

Até abril deste ano, eram emitidos boletins epidemiológicos diários, de segunda à sexta, com incidência, ocupação de leitos, mortalidade, letalidade, número médio de transmissão, dentre outros. A Vigilância também ofereceu subsídios para a retomada progressiva das atividades a partir da diminuição da incidência, número de internações hospitalares, redução da letalidade, por intermédio, por exemplo, do monitoramento de casos suspeitos e confirmados em escolas e da atuação da Vigilância Sanitária, que disponibilizou 90 fiscais sanitários em atividades de campo para manter medidas de segurança não farmacológicas de prevenção. Em diversos pontos da cidade, foram realizadas inspeções em espaços como supermercados e academias, com medidas orientativas e punitivas, em situações graves e de reincidência, trabalho que passou a ser incorporado às ações da Vigilância Sanitária na prevenção de doenças respiratórias.

A sinergia das ações envolvendo todos os setores da Vigilância em Saúde e a integração com a Atenção Básica foram fundamentais para atravessar os momentos de maior complexidade da pandemia. “Considero esse trabalho muito importante para que nossas equipes pudessem se enxergar como parte de um processo mais amplo de saúde, como também para que a população percebesse a importância da não paralização dos serviços e da valorização do trabalho dos profissionais de saúde, a exemplo dos Agentes de Combates as Endemias”, reflete Fabiane Brant.

 

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